(Texto com colaboração de Pedro Teixeira)
Atenção: o texto a seguir possui spoilers dos livros indicados. Leia por sua conta.

 

Cara-Malhada é o bobo de Shireen Baratheon e um dos personagens que sempre diz pequenas preciosidades ao longos dos livros mas que ninguém leva a sério. Até porque, ninguém costuma levar um bobo a sério. Sobre sua história, sabemos que ele foi um escravo em Volantis, e era um garoto inteligente. Sua liberdade foi comprada por Lorde Steffon Baratheon, que se impressionou e tinha intenção de levá-lo a Ponta Tempestade. Na viagem de volta das Cidades Livres, seu navio afundou muito próximo de seu castelo, sendo esmagado contra as rochas da Baía dos Naufrágios, matando todos a bordo, exceto Cara-Malhada, que apareceu nas margens das Terras da Tempestade três dias depois. Somos apresentados a esse personagem tão caricato e misterioso pela primeira vez em A Fúria dos Reis e já ficamos com aquela sensação esquisita por não saber ao certo o que poderia ter acontecido com ele em seu acidente. O personagem, que parece não ter espaço dentro da série da HBO, é um dos elementos mais proféticos e curiosos dos livros. Através dos povs de Davos e Jon, podemos ver que Cara-Malhada sabia de muita coisa que estava pra acontecer. Algumas coisas são tão enigmáticas e assustadoras que podem carregar muitos significados:

 

A FÚRIA DOS REIS

 

No prólogo (pág. 7) ficamos sabendo que a princesa Shireen e seu bobo estão curiosos para conhecer o corvo branco que acabara de chegar da Cidadela à Pedra do Dragão. Nos aposentos de Cressen, a primeira frase do bobo é:
“Debaixo do mar, as aves têm escamas no lugar de penas. Eu sei. Eu sei, ei, ei, ei.”
Os dragões de Dany haviam acabado de nascer.
Logo depois, enquanto Cressen fala sobre o fato de que o corvo branco é sinal de que o verão acabou, o bobo diz:
“É sempre verão debaixo do mar. As sereias casadas usam enfeites no cabelo e cosem vestidos de algas prateadas. Eu sei, eu sei, ei, ei, ei”.
 A ave branca enviada da Cidadela é extremamente bela e consegue falar, crocitando a palavra “senhora”, diversas vezes, em resposta à menina Shireen. Quando Shireen mostra surpresa, o bobo se vira com uma voz “desagradável”:
“Ave esperta, homem esperto, bobo esperto, esperto (…) Oh, bobo esperto, esperto, esperto.”
“Malhas” quer dizer que a ave é inteligente, mas ele é ainda mais. Teorias apontam que o corvo reconhece a verdadeira descendência do bobo que, antes do acidente, era descrito como um garoto inteligente e muito admirável. Essas qualidades vieram de sua família perdida: os Targaryen. Cara Malhada seria descendente de Aerion Targaryen (também conhecido como Monstruoso e Chama Viva). Aqui jaz mais uma tentiva forçada de querer enriquecer a teoria da volta dos Blackfyre, mas… nunca se sabe.
Logo depois, o bobo começa a cantar:
“As sombras vêm dançar, senhor, dançar, senhor, dançar, senhor (…) As sombras vêm ficar, senhor, ficar, senhor, ficar, senhor.”
Aqui, ele prevê as habilidades de “criar bebês da sombra” da Melisandre, muito antes de isso aparecer no livro.  Quando no livro é descrita as circunstâncias em que Cara Malhada foi achado depois de seu acidente, é citado o fato de que um dos homens poderia jurar que sua pele estava fria e pegajosa. E que o garoto inteligente e espirituoso agora estava quebrado: esta era outra pessoa.
Depois, em Davos I (pág 99):
“Debaixo do mar, a fumaça sobe em bolhas e as chamas ardem verdes, azuis e pretas. Eu sei, eu sei, ei, ei, ei”.
Aqui a gente percebe uma clara referência ao fogovivo no que diz respeito ao verde. Mas, é importante frisar que o bobo fala essas palavras no momento em que Stannis exibe a Luminífera durante a queima dos Deuses. Teria a descrição de Cara-Malhada algo a ver com o paradeiro da verdadeira espada? Muitos acreditam que as bolhas fumegantes são os dragões, exceto pelo azul, que deveria ser o creme para serem os de Dany. Alguém viu algum ovo azul por aí?

 

A TORMENTA DE ESPADAS

Em A Tormenta de Espadas, antes de Davos ser preso por Sor Axell Florent (Davos II pág 105), ele fala:

“Sangue de bobo, sangue de rei, sangue na coxa da donzela, mas para os convidados e noivo, correntes, lá, lá, lá.”
  • Sangue de bobo = Aegon Frey, o “Guizo”
  • Sangue de rei = Robb Stark
  • Sangue na coxa da donzela = Edmure Tully e Roslin Frey, em núpcias
  • Para os convidados e noivo, correntes = Os que não morreram, foram aprisionados
Ou seja, ele preveu o Casamento Vermelho antes de ele acontecer.
Depois em Davos V (pág. 545):
“Debaixo do mar, o peixe velho come o peixe novo. Eu sei, eu sei, ei, ei, ei.”
Quando pensamos em peixe, pensamos nos Tully. Mas essa frase em especial é tão vaga que poderia significar qualquer coisa: Tywin subjugando Tyrion, Stannis subjugando Renly, Balon subjugando Theon e todas as relações familiares de “homem mais velho versus homem mais novo”.

 

A DANÇA DOS DRAGÕES

 

Em Jon IX, quando Jon recebe a rainha em Castelo Negro, todos conhecen Wun Wun e Jon pensa em Ygritte:

“Na escuridão a morte está dançando”
Logo após o casamento da Alys Karstark (pág. 550, Jon X), ele fala:
Embaixo do mar o tritão se banqueteia com uma sopa de estrelas-do-mar, e todos os serventes são caranguejos (..) Eu sei, eu sei, oh, oh, oh.
Uma das interpretações espalhadas pelos fóruns é a de que os tritões, que são a casa Manderly, estariam se banqueteando, ou tirando proveito de Davos. O que é completamente aceitável, uma vez que Davos partiu do norte rumo a Skagos com a tarefa mais inacreditável de todas: achar Rickon e trazê-lo aos Manderly.
Ele também poderia estar claramente falando sobre a Torta Frey. A sopa de estrela-do-mar representa os próprios Freys; As várias pontas são os vários ramos da Casa Frey. As estrelas-do-mar também são capazes de regenerar uma de suas pontas, ou até mesmo todo o seu corpo a partir de apenas uma ponta. Isso pode representar todos os inúmeros descendentes do Walder Frey, que nunca parecem acabar.
O caranguejo é símbolo da Casa Borrel, e foi Lorde Godric (senhor de Doceirmã) quem enviou Davos à Porto Branco. O caranguejo também poderia ser o próprio Lorde Manderly, já que ele anda numa liteira para lá e para cá. Imagine uma liteira de lado, com dois homens carregando-a pela frente e dois por trás. Isso lembra, mesmo que um pouco, um caranguejo.
Além disso, depois que Cara Malhada fala sobre isso, Melisandre fica tensa, dizendo:
“Essa criatura é perigosa. Muitas vezes o vislumbrei em minhas chamas. Algumas vezes há crânios em torno dele e os lábios estão vermelhos de sangue “.
Após Tormund chegar na Muralha (Jon XI – pág. 595):
“Sob o mar, os corvos são brancos como a neve, eu sei, eu sei, oh, oh, oh.”
Essa pode dizer o que acontece com o Jon após o final da Dança, onde ele, pra escapar daquela situação, troca de pele com o Fantasma (pêlo branco como a neve). Ou uma clara referência ao fato de que os patrulheiros, que são corvos, morrem e se tornam criaturas brancas. Cara Malhada viu a morte enquanto se afogava e, pra ele, “embaixo do mar” ou “sob o mar”seria uma metáfora para toda situação de extremo perigo.
Quando a Rainha Selyse pede para o bobo escoltar a filha de volta para o quarto, ele diz:
“Vamos, vamos. Venha comigo para o fundo do mar, vamos, vamos.”
Perceba como durante todo esse tempo o bobo vive ao lado de uma garotinha que, aparentemente, tem uma doença transmissível que pode trazer muita confusão ainda nos livros. O escamagris de Shireen, segundo Val, não está curado. E o bobo parece nunca ter referenciado nada em relação a isso. Até agora. Se “fundo do mar” realmente for uma metáfora para a morte.
Em Jon XIII (pág. 762), quando o Comandante divide com os homens da rainha seu desejo em ir a Durolar resgatar os selvagens, Cara-Malhada diz:
“Eu lidero! Marcharemos para o mar e para fora novamente. Sob as ondas, montaremos em cavalos-marinhos e sereias soprarão conchas para anunciar nossa chegada, oh, oh, oh”
Essa tradução “para o mar e para fora novamente” não passa a mesma sensação do texto original que diz: “We will march into the sea and out again.” A sensação é a de morte e ressurreição. De quem?

 

O DEUS AFOGADO
Patchface por Amok ©
Cara-Malhada pode ser a prova mais abundante da existência do Deus Afogado, embora não tenha particularmente vínculos com as famílias das Ilhas de Ferro. Quando um homem de ferro quer provar o poder de seu Deus, o que ele faz? Se afoga e é ressucitado através de respiração boca-a-boca. Cara-Malhada, no entanto se afogou e aparentemente voltou a vida sem nenhum tipo de recurso ou ajuda humana. Seria ele um verdadeiro enviado dos salões aquáticos para ser o representante na grande guerra entre as forças de fogo e gelo, o bem e o mal, a luz e a escuridão pela qual os livros estão nos encaminhando e nos fazendo acreditar? E de que lado o Deus Afogado estaria? Não que essa história de “bem e mal” seja algo que realmente importe ou sequer exista. De qualquer forma é evidente que Cara-Malhada pode ter tido visões de todas essas coisas enquanto se afogava. Curioso é que ele só as revela quando estão prestes a acontecer.