Um combate épico entre dois dos mais formidáveis espadachins de Westeros, personagens emblemáticos que, por acaso ou não, são irmãos com uma rivalidade mortal. Este é o infame Cleganebowl, o hipotético confronto entre Sandor e Gregor Clegane, o Cão de Caça versus a Montanha que Cavalga.

Esse pretenso duelo se tornou uma das teorias mais abraçadas pela base de fãs de As Crônicas de Gelo e Fogo e Game of Thrones, mas será que ele acontecerá mesmo na obra de George R. R. Martin? Neste artigo aponto por que acredito que o Cleganebowl não é tão provável nos livros. Acompanhe e descubra se todo o hype se justifica ou não.

A teoria

É sabido que em Game of Thrones tanto Gregor quanto Sandor Clegane estão claramente vivos à altura da última temporada, mas nossa análise é relativa a As Crônicas de Gelo e Fogo, então nos ateremos ao texto de GRRM.

Ao final de A Dança dos Dragões, os irmãos Clegane estão, à primeira vista, mortos. Mas pode não ser bem assim. Vejamos como eles aparentemente morreram e como podem estar vivos (ou quase).

As mortes dos Clegane

Dias após lutar contra Oberyn Martell (e vencê-lo) no julgamento por combate de Tyrion Lannister, Gregor Clegane agoniza em decorrência de veneno aplicado pelo dornês em sua lança. Pycelle tenta curar o Montanha – uma ordem de Tywin, que planejava executá-lo publicamente para satisfazer os Martell –, mas não tem sucesso.

Após ser objeto de experimentos de Qyburn, que conclui que Oberyn o envenenara com manticora, o Clegane mais velho acaba mesmo por morrer, e sua cabeça é enviada a Doran Martell em Dorne. É essa a versão oficial sobre o destino de Gregor.

Arya Stark abandona Sandor Clegane ferido à beira do Tridente
Arya Stark abandona Sandor Clegane ferido à beira do Tridente. Arte: “The Hound gets no mercy”, por Mark S. Miller.

O Clegane mais novo não tem sorte muito melhor. Em uma altercação com homens de Gregor na estalagem do entroncamento, Sandor é ferido em diversas partes do corpo, e também fica muitíssimo debilitado. Arya Stark tenta tratar dos ferimentos, mas eles infeccionam, e a menina o deixa para morrer sob uma árvore à beira do Tridente.

Posteriormente, relatos sobre o Cão de Caça aterrorizando as Terras Fluviais circulam pela região, e a maioria dos personagens acreditam se tratar ainda de Sandor. No entanto, Brienne de Tarth e seus companheiros visitam a septeria de Ilha Quieta, e o líder do local diz que Sandor não pode estar vivo, uma vez que ele o enterrou pessoalmente. Mais tarde, Brienne descobre que Rorge é quem passara a usar o elmo em forma de cão e a aterrorizar a região (e ele acaba morto por ela).

Uma leitura só um pouco mais apurada, porém, indica que os destinos de Gregor e Sandor provavelmente não são tão definitivos como o texto faz parecer à primeira vista.

Sandor vivo?

Ao que tudo indica, a Ilha Quieta tem mais a oferecer sobre Sandor Clegane do que simplesmente o que diz o líder do local, conhecido simplesmente como Irmão Mais Velho – e até as palavras dele podem significar mais do que aparentam.

Isto é o que o homem diz a Brienne quando fala sobre o destino do Cão de Caça:

– O homem que persegue está morto.
Aquilo foi outro choque.
– Como foi que ele morreu?
– Como viveu, pela espada.
– Tem certeza disso?
– Fui eu mesmo quem o enterrou. Posso lhe dizer onde fica a sepultura, se quiser. Cobri-o com pedras para evitar que os necrófagos desenterrassem sua carne, e pousei o elmo no topo do monte, para identificar o local de seu último descanso. Este foi um grave erro. Outro viajante qualquer descobriu minha marca e ficou com ela. O homem que violou e matou em Salinas não foi Sandor Clegane, embora talvez seja igualmente perigoso. As terras fluviais estão cheias desse tipo de devoradores de carniça. Não os chamarei lobos. Estes são mais nobres do que isso… e os cães também, julgo eu. Sei um pouco sobre esse homem, Sandor Clegane. Foi escudo juramentado do Príncipe Joffrey durante muitos anos, e até aqui ouvíamos falar de seus feitos, tanto os bons como os maus. Se metade do que ouvimos é verdade, tratava-se de uma alma amarga e atormentada, de um pecador que troçava igualmente dos deuses e dos homens. Ele servia, mas não encontrava orgulho no serviço. Lutava, mas não obtinha alegria da vitória. Bebia para afogar a dor num mar de vinho. Não amava, e tampouco era amado. Era o ódio que o movia. Embora cometesse muitos pecados, nunca procurava perdão. Enquanto outros homens sonham com amor, ou com riqueza, ou glória, esse Sandor Clegane sonhava matar o próprio irmão, um pecado tão terrível que me faz estremecer só de falar nele. E, no entanto, era esse o pão que o nutria, o combustível que mantinha suas fogueiras queimando. Por ignóbil que fosse, a esperança de ver o sangue do irmão em sua espada era tudo aquilo para que vivia aquela triste e furiosa criatura… E até isso lhe foi roubado, quando o Príncipe Oberyn de Dorne apunhalou Sor Gregor com uma lança envenenada.
– Parece ter pena dele – disse Brienne.
– E tive. Você também teria se apiedado dele, se o tivesse visto no fim. Deparei com ele junto ao Tridente, atraído por seus gritos de dor. Suplicou-me que lhe desse a misericórdia, mas jurei não voltar a matar. Em vez disso, banhei-lhe a testa febril com água do rio, dei-lhe vinho e fiz um cataplasma para o ferimento, mas meus esforços foram pequenos e tardios demais. Cão de Caça morreu ali, em meus braços. Talvez tenha visto um grande garanhão negro em nossos estábulos. Era seu cavalo de guerra, Estranho. Um nome blasfemo. Preferimos chamá-lo de Trazido Pela Correnteza, uma vez que foi encontrado junto ao rio. Temo que o animal tenha a natureza do antigo dono.
[…]
– Então é verdade – Brienne disse sem emoção na voz. – Sandor Clegane está morto.
– Repousa – o Irmão Mais Velho fez uma pausa.
(O Festim dos Corvos, cap. 31, Brienne VI. Tradução de Jorge Candeias, adaptada pela editora Leya.)

Brienne e o Irmão Mais Velho
Brienne conversa com o Irmão Mais Velho. Arte: pojypojy.

Observa-se que o Irmão Mais Velho conhece bastante sobre Sandor Clegane, mais do que seria esperado para alguém que vive praticamente isolado do mundo no meio das Terras Fluviais. É possível inferir, assim, que ele conversou bastante com o próprio Sandor. Teria sido possível uma conversa com tantos detalhes quando o Cão de Caça já estava moribundo à beira do Tridente?

É digno de nota, também, que no final do relato o Irmão Mais Velho sempre se refere a “Cão de Caça”, e não a “Sandor Clegane”. Além disso, quando Brienne diz categoricamente que “Sandor Clegane está morto”, o homem responde simplesmente que ele “repousa”. É possível presumir que o Irmão Mais Velho vê uma diferença entre Sandor Clegane e a persona Cão de Caça.

Na continuação desse diálogo, o homem passa a contar que ele mesmo fora um cavaleiro, cuja “vida era escrita em vermelho, em sangue e vinho” (uma descrição que poderia ser um resumo do relato que fez da vida de Sandor). Brienne pergunta ao Irmão quando foi que ele mudou, ao que ele responde:

– Quando morri na Batalha do Tridente. […] Uma flecha atravessou minha coxa e outra trespassou-me o pé, e meu cavalo foi morto entre minhas pernas, mas continuei lutando. […] Não cheguei a ver o golpe que me derrubou. Ouvi cascos atrás de mim e pensei: um cavalo!, mas, antes de ter tempo para me virar, algo se esmagou contra minha cabeça e me atirou ao rio, onde deveria ter me afogado. Em vez disso, acordei aqui, na Ilha Quieta. O Irmão Mais Velho me disse que tinha dado à costa na maré, nu como no dia de meu nome. Só posso imaginar que alguém me tenha encontrado nos baixios, despido-me de armadura, botas e calções, e voltado a me empurrar para águas mais profundas. O rio fez o resto. Todos nascemos nus, de modo que suponho que seja adequado que eu tenha chegado à minha segunda vida de forma idêntica. Passei os dez anos seguintes em silêncio.
– Compreendo – Brienne não sabia por que o homem lhe contara tudo aquilo, ou que outra coisa deveria dizer.
– Ah, sim? – ele se inclinou para a frente, com as grandes mãos nos joelhos. – Se compreende, desista dessa sua demanda. Cão de Caça está morto e, seja como for, ele nunca teve a sua Sansa Stark.
(O Festim dos Corvos, cap. 31, Brienne VI. Tradução de Jorge Candeias, adaptada pela editora Leya.)

Brienne não compreende por que o homem lhe conta toda essa história, mas poderia o Irmão Mais Velho estar indicando que concedeu a outro guerreiro desgraçado a dádiva que ele mesmo recebera de um Irmão Mais Velho anterior? É uma hipótese muitíssimo possível, quando vemos os vários irmãos de Ilha Quieta. Entre eles, há um em especial cujas características são bastante peculiares:

Nas vertentes mais elevadas viram três rapazes conduzindo ovelhas, e ainda mais acima passaram por um cemitério, onde um irmão maior do que Brienne lutava para cavar uma sepultura. Pelo modo como se movia, era evidente que o homem era coxo. Ao atirar uma pá de solo pedregoso por sobre um ombro, um punhado caiu sobre os pés do grupo.
– Mais cuidado com isso – repreendeu-o Irmão Narbert. – Septão Meribald podia ter ficado com a boca cheia de terra – o coveiro abaixou a cabeça. Quando Cão foi farejá-lo, deixou cair a pá e coçou-lhe uma orelha.
(O Festim dos Corvos, cap. 31, Brienne VI. Tradução de Jorge Candeias, adaptada pela editora Leya.)

Como é sabido, Brienne é excepcionalmente alta (e não apenas para os padrões femininos). Uma pessoa mais alta que ela tem também de ser alguém notável por esse traço, e Sandor Clegane é um dos personagens que se encaixa nessa situação.

Nos livros, Sandor é descrito como bastante alto, mas não se poderia saber só com essa informação se seria mais alto que Brienne. Felizmente, George R. R. Martin já havia esclarecido a questão fora dos livros (em 2001, antes da publicação de O Festim dos Corvos, que ocorreu quatro anos depois):

Só de cabeça, eu diria que Brienne é mais alta que Renly e Jaime, e consideravelmente mais pesada que ambos, mas nem de perto do tamanho de Gregor Clegane, que é o verdadeiro gigante da série. Mais baixa que Hodor e que o Grande Jon, talvez um pouco mais baixa que o Cão de Caça, talvez mais ou menos da mesma altura que Robert.
(So Spake Martin: Brienne of Tarth. Linda Elane em Westeros.org. Tradução e grifos meus.)

Apenas a altura, porém, não seria argumento suficiente para identificar o coveiro como Sandor – que é, naturalmente, o que está sendo sugerido aqui. A menção ao homem ser coxo também é coerente com os vários ferimentos que Sandor recebeu no confronto na estalagem do entroncamento.

Outro ponto importante é a presença do cavalo de Sandor – outrora chamado Estranho e rebatizado pelo Irmão Mais Velho como “Trazido pela Correnteza” – em Ilha Quieta. O cavalo é extremamente violento, e um dos irmãos diz que ele feriu dois de seus colegas quando tentaram tratar dele. Como o Irmão Mais Velho teria sido capaz de levar esse animal tão indócil pelo difícil trajeto até a ilha? Seria um tanto estranho que ele tivesse feito isso sozinho, mas a presença de Sandor poderia explicar facilmente essa questão.

Coveiro e Cão em Ilha Quieta
Quiet Isle, por Alridpath.

Além disso, um dos pontos mais notáveis a favor da hipótese, e que é bastante coerente com a forma de George R. R. Martin de dar dicas, é o fato de que quando o cachorro Cão vai até o homem, este se abaixa para fazer carinho no animal. É claro que a sugestão é o simbolismo da associação entre Sandor e cães, tanto por seu apelido Cão de Caça quanto pelo brasão de sua Casa, que ostenta três cachorros negros em um campo amarelo.

De minha parte, somando toda a conversa entre o Irmão Mais Velho e Brienne com a descrição do coveiro, sou plenamente convicto de que se trata mesmo de Sandor Clegane, que deixou a persona violenta e atormentada do Cão de Caça e vive uma vida penitente na septeria de Ilha Quieta.

Gregor (morto-)vivo?

No caso do destino de Gregor, talvez “vivo” não seja a palavra mais adequada para descrevê-lo. Embora a versão oficial sobre o Montanha seja a de que ele morreu em decorrência do veneno aplicado por Oberyn Martell, o fato de ter sido tratado por Qyburn indica que há algo a mais nessa história.

Qyburn fora um meistre da Cidadela extremamente habilidoso nas artes de cura. No entanto, ao invés de conduzir experimentos da forma habitual, abrindo cadáveres para aplicar o que aprendesse nos vivos, ele passou a abrir corpos de pessoas vivas para estudar a morte. Foi, por isso, expulso da ordem, e se juntou aos Bravos Companheiros em Essos. Em Harrenhal, era dito que ele possuía conhecimentos de necromancia e magia negra.

Após acompanhar Jaime Lannister a Porto Real, Qyburn permanece na cidade e acaba caindo nas graças de Cersei, que lhe pede, entre outras coisas, que examine o moribundo Gregor. Qyburn o transporta para as celas negras da Fortaleza Vermelha, onde passa a estudá-lo. Segundo Qyburn, o Montanha acaba mesmo por morrer, e o ex-meistre é quem prepara sua cabeça para ser enviada aos dorneses.

Qyburn, que fora nomeado também Mestre dos Sussurros, convence a rainha a lhe fornecer cobaias (preferencialmente mulheres) para outros experimentos macabros nas celas negras. Entre as vítimas entregues por Cersei a ele estão a antiga criada Senelle, marionetistas que realizaram uma peça “traidora”, e a nobre Falyse Stokeworth.

Robert Strong
Sor Robert Strong, por Robert O’Leary.

Presumindo que uma vaga na Guarda Real poderia se abrir quando Loras Tyrell parte para tomar Pedra do Dragão, Qyburn sugere a Cersei um certo campeão contra o qual nenhum homem teria chance, para quem manda fazer uma enorme armadura. Mais tarde, quando Cersei está presa pela Fé dos Sete, Qyburn informa à rainha que esse campeão está pronto.

Como não há vagas na Guarda Real, o tal campeão invencível não poderia defender Cersei, mas a oportunidade surge quando chegam notícias sobre a morte de Arys Oakheart em Dorne. O cavaleiro finalmente é visto e apresentado como Sor Robert Strong na caminhada da vergonha da rainha, quando a toma nos braços e a carrega para a segurança da Fortaleza Vermelha.

Segundo Qyburn, Robert Strong fez um voto de silêncio “até que todos os inimigos de Sua Graça [o Rei Tommen] estejam mortos e o mal seja expulso do reino”, uma explicação bastante conveniente para o silêncio desse misterioso cavaleiro. Mais tarde, no final de A Dança dos Dragões, o Regente Kevan Lannister e o Pequeno Conselho conversam sobre Sor Robert:

– Minha sobrinha escolheu julgamento por combate, segundo me informou. Sor Robert Forte será seu campeão.
– O gigante silencioso. – Lorde Randyll fez uma careta.
– Diga-me, sor, de onde veio esse homem? – exigiu saber Mace Tyrell. – Por que nunca ouvimos seu nome antes? Ele não fala, não mostra seu rosto, nunca é visto sem sua armadura. Sabemos com certeza que é mesmo um cavaleiro?
Não sabemos nem se está vivo. Meryn Trant afirmava que Forte nunca comia ou bebia, e Boros Blount ia além, dizendo que nunca vira o homem usar a latrina. Por que deveria? Mortos não cagam. Kevan Lannister tinha uma forte suspeita de quem este Sor Robert realmente era embaixo daquela reluzente armadura branca. Uma suspeita que Mace Tyrell e Randyll Tarly sem dúvida partilhavam. Qualquer que fosse o rosto escondido atrás do elmo do Forte, devia permanecer oculto por enquanto. O gigante silencioso era a única esperança de sua sobrinha. E rezemos para que seja tão formidável quanto parece.
(A Dança dos Dragões, epílogo. Tradução de Marcia Blasques.)

Os indícios de que Strong na verdade seria uma versão morto-vivo de Gregor Clegane (ou pelo menos de seu corpo, visto que a cabeça parece mesmo ter sido enviada a Dorne) já eram fortíssimos. Com essa passagem, que revela as desconfianças dos próprios personagens dentro da história, George R. R. Martin praticamente soletrou a questão para seus leitores.

Elmos dos irmãos Clegane
Os elmos da Montanha e do Cão de Caça (que não estariam em um confronto entre Robert Strong e Sandor Clegane). Arte: Alexey Lipatov.

O Cleganebowl

A intensa rivalidade e o ódio mútuo entre os irmãos Clegane é fato notório em As Crônicas de Gelo e Fogo, conhecido desde o primeiro livro da série. Durante o Torneio da Mão, em A Guerra dos Tronos, o leitor descobre o passado dos Clegane através do próprio Sandor, em diálogo com Sansa Stark:

[…] Era mais novo do que você, com seis anos, talvez sete. Um marceneiro montou uma loja na aldeia que ficava abaixo da fortaleza de meu pai e, para comprar favores, enviou-nos presentes. O velho fazia brinquedos maravilhosos. Não me lembro do que recebi, mas era o presente de Gregor que eu desejava. Um cavaleiro de madeira, todo pintado, com cada articulação presa em separado e fixada com cordas para que se pudesse pô-lo a lutar. Gregor é mais velho que eu cinco anos, o brinquedo não significava nada para ele, já era um escudeiro com quase um metro e oitenta e musculoso como um touro. Portanto, tirei dele o cavaleiro, mas posso lhe dizer que não houve nenhuma alegria nisso. Tive medo o tempo todo, e realmente ele me encontrou. Havia um braseiro na sala. Gregor não disse uma única palavra, limitou-se a me colocar debaixo do braço e a enfiar o lado da minha cara nos carvões em brasa, deixando-me lá enquanto eu gritava sem parar. Viu como ele é forte. Mesmo naquele tempo, foram precisos três homens fortes para afastá-lo de mim. […]
(A Guerra dos Tronos, cap. 29, Sansa II. Tradução de Jorge Candeias, adaptada pela editora Leya.)

No segundo dia do torneio, os irmãos se enfrentam, quando Gregor tenta matar Loras Tyrell por ter usado uma égua no cio, que desorientou seu garanhão e o atrapalhou na justa:

[…] Sor Gregor brandiu a espada, um violento golpe a duas mãos que atingiu o rapaz no peito e o derrubou da sela. O corcel fugiu em pânico, enquanto Sor Loras jazia atordoado no chão. Mas, quando Gregor ergueu a espada para o golpe fatal, uma voz áspera advertiu: “Deixe-o em paz”, e uma mão revestida de aço atirou-o para longe do rapaz.
A Montanha rodopiou numa fúria sem palavras, brandindo a espada num arco mortífero com toda a sua maciça força posta no golpe, mas Cão de Caça aparou o golpe e contra-atacou, e durante o que pareceu uma eternidade, os dois irmãos trocaram golpes, enquanto um entontecido Loras Tyrell era ajudado a pôr-se em segurança. Três vezes Ned viu Sor Gregor lançar violentos golpes no elmo da cabeça de Cão, mas nem uma vez Sandor deu uma estocada ao rosto desprotegido do irmão.
Foi a voz do rei que pôs fim àquilo… a voz do rei e vinte espadas. Jon Arryn dissera-lhes que um comandante precisa de uma boa voz de batalha, e Robert provara no Tridente que era verdade. Era essa a voz que usava agora.
– PAREM COM ESTA LOUCURA – trovejou – EM NOME DO SEU REI!
Cão de Caça caiu sobre um joelho. O golpe de Sor Gregor cortou o ar, e por fim caiu em si. Deixou cair a espada, olhou intensamente para Robert, cercado por sua Guarda Real e uma dúzia de outros cavaleiros e guardas. Sem uma palavra, virou-se e afastou-se em passo rápido, abrindo caminho junto a Barristan Selmy com um encontrão.
(A Guerra dos Tronos, cap. 30, Eddard VII. Tradução de Jorge Candeias, adaptada pela editora Leya.)

Hound vs Mountain
Gregor vs Sandor Clegane. Arte: Tomasz Jedruszek. © Fantasy Flight Games.

Assumindo que ambos estão vivos (ou mais ou menos, no caso de Gregor), foi simples para o fandom teorizar que um novo confronto entre os dois pode acontecer. O momento para esse encontro seria um duelo que acontecerá, provavelmente, em Os Ventos do Inverno: o julgamento por combate de Cersei Lannister. A Fé dos Sete a acusa de vários crimes capitais, e o gigante Robert Strong será o campeão dela nesse confronto.

Com Sandor em um retiro da própria Fé nas Terras Fluviais, a sugestão de que ele poderia representar a ordem religiosa no julgamento (e defrontar o irmão) veio facilmente às mentes de muitos leitores.

Uma passagem do primeiro livro também é frequentemente usada como argumento para essa hipótese. Trata-se de uma visão de Bran Stark, em contato com o Corvo de Três Olhos, em que supostamente os dois irmãos apareceriam juntos:

Havia sombras a toda volta. Uma das sombras era escura como cinzas, com o terrível rosto de um cão de caça. Outra estava armada como o sol, dourada e bela. Sobre ambas erguia-se um gigante numa armadura de pedra, mas, quando abriu a viseira, nada havia lá dentro exceto escuridão e um espesso sangue negro.
(A Guerra dos Tronos, cap. 17, Bran III. Tradução de Jorge Candeias.)

A ideia é que a primeira sombra, naturalmente, representaria Sandor, e a última, Gregor (ou Robert Strong). A do meio é geralmente associada a Oberyn Martell (uma vítima de Gregor).

Extrapolando ainda mais, alguns proponentes da teoria sugerem que como Sandor é o irmão mais novo dos Clegane, poderia se enquadrar como valonqar. Segundo essa ideia, ao derrotar Gregor ele causaria a ruína de Cersei, e cumpriria também a profecia de Maggy, a Rã.

Quanto ao nome pelo qual o hipotético confronto ficou conhecido, segundo o Know Your Meme, a primeira menção registrada do termo “Cleganebowl” aconteceu em 2013, no 4chan:

Cleganebowl
A primeira menção registrada do termo Cleganebowl, no 4chan, em 2013. Fonte: Know Your Meme.

“Cleganebowl” faz referência ao Super Bowl XLVII, jogado em 2013. Essa edição foi disputada entre os Baltimore Ravens e os San Francisco 49ers, cujos treinadores eram os irmãos John e Jim Harbaugh, respectivamente. O jogo foi, por isso, apelidado de “Harbowl”, e a piada foi aproveitada no hipotético confronto entre os Clegane.

Nos anos seguintes, o nome se popularizou entre a base de fãs, e ganhou notabilidade no Reddit, tanto no subreddit de As Crônicas de Gelo e Fogo, o r/asoiaf (“get hype!“), quanto com a criação de um subreddit próprio, o r/cleganebowl.

Um usuário chegou a perguntar ao próprio George R. R. Martin sobre o Harbowl, tentando sutilmente contextualizá-lo com o possível Cleganebowl. George chegou a responder à pergunta, mas ou não entendeu o que estava sendo sugerido, ou preferiu ignorar:

GRRM Cleganebowl
Um fã tenta perguntar a George sobre o Cleganebowl fazendo referência ao Harbowl.

Reddit Cleganebowl: Boas festas George,

Sou um leitor de longa data, comentando pela primeira vez. Essa pergunta é sobre futebol americano, mas um pouco fora do assunto do jogo de domingo.

Sobre o Superbowl 2013, entre os Ravens e os 49ers: do seu ponto de vista, como fã de longa data de futebol americano, você acha que a rivalidade entre os irmãos Jim e John Harbaugh confirmou o status de evento 100% único no esporte? Isso é similar a como uma rivalidade entre irmãos pode proporcionar um clímax de uma história épica.

O foco da imprensa nos Harbaughs foi um exemplo de hipérbole máxima?

Obrigado pelos romances e pelas ideias interessantes no blog.

GRRM: A imprensa procura sempre um ponto de vista que torne esse último jogo especial e empolgante. A rivalidade entre irmãos era um ângulo diferente, então é claro que a usaram.

A teoria como um todo se estendeu também à série Game of Thrones, e foi impulsionada com o retorno de Sandor Clegane na sexta temporada, após sua aparente morte dois anos antes. Além disso, Gregor nunca chegou a deixar completamente a série. Robert Strong não existe na TV, e é o próprio Montanha quem é trazido de volta por Qyburn (com uma aparência um tanto macabra).

Embora livros e série televisiva tenham se distanciado consideravelmente – a ponto de serem efetivamente obras distintas – a presença explícita dos dois personagens em Game of Thrones também serviu de combustível para os proponentes da teoria em As Crônicas de Gelo e Fogo.

Cleganebowl
“A Sin so Terrible”, por Ertaç Altinöz.

Os problemas

Não compro a ideia de um Cleganebowl por várias razões. Não é apenas porque considero a raiz da hipótese uma glorificação genérica, por parte dos fãs, de um combate “épico” e “foda” (tão coerente com os intuitos da série de TV, mas pouco em relação aos livros de Martin). Existem também motivos de natureza lógica que me fazem concluir que a teoria não faz lá muito sentido em As Crônicas de Gelo e Fogo.

Logística

Em primeiro lugar, existem problemas para explicar como se chegaria, na prática, a esse duelo. A certeza de que Robert “Gregor” Strong será o campeão de Cersei no julgamento de combate contra a Fé dos Sete já existe. Mas será que o fato de Sandor estar recolhido a um retiro religioso nas Terras Fluviais o torna automaticamente apto a ser o campeão da Fé nesse confronto? Na verdade, parece (muito) que não.

A septeria de Ilha Quieta, como já dito, é um retiro para penitentes, homens que querem expiar seus pecados. Os residentes fazem um voto de silêncio, exceto quando confessam, e as confissões só são feitas quando algum septão andante (como Meribald) passa pelo local, pois não há um que resida na ilha.

Ilha Quieta
A localização de Ilha Quieta nas Terras Fluviais. Mapa adaptado de Atlas das Terras de Gelo e Fogo (Leya).

Ilha Quieta está localizada na foz do Tridente, relativamente perto de Harrenhal, mais perto ainda de Salinas. O acesso a ela é bastante demorado e complicado (exceto na maré baixa, quando barcos podem ser usados), e os residentes vivem largamente isolados do mundo exterior. O Irmão Mais Velho propositalmente oculta as piores informações que recebe do exterior, para que a tranquilidade do ambiente não seja perturbada.

A conclusão a que se chega é que o contato da septeria com a estrutura religiosa da Fé em Porto Real não é muito frequente – se é que de fato ocorre. Se existe algum contato entre os residentes de Ilha Quieta e os religiosos do exterior, ele é feito principalmente pelo Irmão Mais Velho, que “filtra” o que chega aos outros irmãos.

Assim, dois grandes problemas se afiguram para a logística da seleção do coveiro Sandor como Campeão da Fé em Porto Real: como ele ficaria sabendo do julgamento por combate, e por que a Fé saberia que ele ainda vive?

Vamos, primeiro, analisar a situação do ponto de vista da Fé. A instituição sabe que Sandor Clegane faz parte de uma pequena septeria isolada nas Terras Fluviais? É muito provável que não. Sandor era uma figura notória nos Sete Reinos, que certamente chamaria a atenção da Fé, se fosse sabido que ele havia se tornado um homem penitente. Ainda que não para o julgamento por combate, ele seria politicamente útil de alguma forma para a organização.

As falas do Irmão Mais Velho dão a entender que a intenção é que Sandor fique no retiro anonimamente, justamente para poder ter paz. Não existe, assim, razão para que a Fé vá ativamente atrás de Sandor para que ele seja seu campeão no julgamento, se a organização sequer sabe dessa possibilidade.

Aliás, os irmãos de Ilha Quieta têm ativamente procurado desinformar a capital sobre o paradeiro de Sandor. No casamento de Tommen e Margaery Tyrell, o seguinte diálogo tem lugar entre Kevan Lannister e Cersei:

– As terras fluviais estão ainda muito perigosas. A escumalha de Vargo Hoat continua a monte, e Beric Dondarrion tem andado a enforcar Freys. É verdade que Sandor Clegane se juntou a ele?
Como ele sabe disso?
– Há quem diga que sim. Os relatórios são confusos – a ave tinha chegado na noite anterior, vinda de uma septeria erguida numa ilha situada perto da foz do Tridente. A vila vizinha de Salinas fora selvaticamente atacada por um bando de fora da lei, e alguns dos sobreviventes afirmavam que um brutamontes rugidor, com um elmo em forma de cabeça de cão, encontrava-se entre os assaltantes.
(O Festim dos Corvos, cap. 12, Cersei III. Tradução de Jorge Candeias, adaptada pela editora Leya.)

A ilha em questão é a própria Ilha Quieta, certamente. A essa altura, presumivelmente Sandor já era um dos irmãos do local, e esse corvo enviado a Porto Real tinha claramente a intenção de sugerir às “autoridades” que o Cão de Caça estava à solta pelas Terras Fluviais. Como era a própria septeria quem estava fazendo a denúncia, ela seria o último lugar em que ele seria procurado, e ele poderia continuar vivendo por lá tranquilamente como o coveiro.

Agora, vejamos a questão pelo outro lado, o de Sandor. Para ele ter ciência dessa situação, o Alto Septão e a Fé teriam que divulgar a todos os Sete Reinos que estariam buscando um guerreiro para um julgamento por combate. E simplesmente não parece que esse seja um modus operandi lógico para esse tipo de situação. O mais razoável é a instituição selecionar algum homem que já faz parte de suas fileiras militares (da Fé Militante ou da Santa Centena), ao invés de enviar comunicados a todos os rincões de difícil acesso dos Sete Reinos, como a septeria de Ilha Quieta, para tentar encontrar algum possível ótimo campeão.

Ainda que se admita que a Fé tomaria essa atitude de escolher algum guerreiro aleatório para representá-la em um julgamento por combate tão importante, a forma como o Irmão Mais Velho fala sobre Sandor dá a entender que ele pretende que Clegane viva um período de paz e penitência em Ilha Quieta – ele sugere a Brienne, por exemplo, que desista da demanda de encontrá-lo. Se a notícia sobre uma convocação para julgamento por combate chegasse à ilha, certamente o Irmão Mais Velho não a contaria a Sandor.

Além disso, como seria essa notícia? O leitor e alguns dos membros do Pequeno Conselho (e provavelmente outros membros da corte em Porto Real) suspeitam que Robert Strong seja na verdade Gregor Clegane, mas essa não é uma informação publicamente conhecida, e nem há razões para que seja (afinal, o cavaleiro acabou de aparecer).

Certamente uma hipotética convocação da Fé ou a mera notícia do julgamento não mencionaria que Strong é Clegane. Isso significa que, na remotíssima hipótese de a informação chegar a Sandor, ele sequer saberia que o campeão da rainha no julgamento por combate é na verdade (uma versão de) seu irmão.

Assim, do ponto de vista da logística interna, é altamente improvável que Sandor vá sair de um santuário pacífico no meio das Terras Fluviais, que recebe poucas notícias do mundo exterior e do qual o mundo exterior parece sequer ter muito conhecimento, para ser o Campeão da Fé em um julgamento em Porto Real.

Temática

Além de vários empecilhos de ordem prática que tornam o Cleganebowl bastante improvável, a hipótese também encontra obstáculos no campo temático. O hipotético combate entre os irmãos Clegane seria um evento épico, a culminação de uma longa história de ódio, violência e rivalidade. Mas será que é isso mesmo o que George R. R. Martin quer para esses personagens?

Elmo do Cão de Caça
O elmo do Cão de Caça, símbolo de violência. Arte: Alberto Arribas.

No capítulo em Ilha Quieta, em que o leitor descobre o paradeiro de Sandor e ouve o que o Irmão Mais Velho tem a dizer sobre o personagem e sua situação, o tom não é de vingança e violência – pelo contrário. O que se vê em Sandor na septeria é justamente o “enterro” da persona Cão de Caça, a personalidade raivosa, vingativa e violenta, que teria ficado para trás junto com o elmo.

Essa persona, aliás, continua viva, mas em outras pessoas que não Sandor Clegane. O elmo característico do Cão de Caça, que simboliza todos esses sentimentos violentos, passa primeiro a Rorge. Já dono de um passado cruel, ele passa a aterrorizar as Terras Fluviais, sendo responsável, por exemplo, pelo massacre de Salinas.

Rorge acaba morto pelas mãos de Brienne, e o elmo troca de dono novamente. Desta vez quem o recolhe é Limo Manto Limão, da Irmandade sem Bandeiras, que também decide usá-lo. Thoros de Myr reconhece que o elmo é um símbolo de violência, e se opõe à ideia:

Conheço esse homem, Brienne pensou.
– É o Cão de Caça.
Ele abriu um sorriso. Seus dentes eram horríveis; tortos e com manchas marrons devido à cárie.
– Suponho que seja. Visto que a senhora tratou de matar o último – virou a cabeça e escarrou.
Brienne recordou o relâmpago estalando, a lama sob os seus pés.
– Quem eu matei foi Rorge. Ele tirou o elmo da tumba de Clegane, e você o roubou de seu cadáver.
– Não estou ouvindo ele protestar.
Thoros prendeu a respiração, consternado.
– Isso é verdade? O elmo de um morto? Caímos assim tão baixo?
O grandalhão lançou-lhe um olhar carrancudo.
– É bom aço.
– Não há nada de bom nesse elmo, nem nos homens que o usaram – disse o sacerdote vermelho. – Sandor Clegane era um homem atormentado, e Rorge, um animal em pele humana.
– Não sou nem um nem outro.
– Então para que mostrar ao mundo a cara deles? Selvagem, a rosnar, retorcida… é isso o que
quer ser, Limo?
– Vê-la vai encher de medo meus inimigos.
– Vê-la me enche de medo.
– Então feche os olhos – o homem do manto amarelo fez um gesto brusco. – Traga a puta.
Brienne não resistiu.
(O Festim dos Corvos, cap. 42, Brienne VIII. Tradução de Jorge Candeias, adaptada pela editora Leya.)

Nota-se que Limo não rejeita a ideia de ser identificado como o Cão de Caça (mesmo com toda a carga negativa que essa figura representa nos Sete Reinos), e que faz pouco caso da oposição de Thoros ao uso do elmo. Embora o sacerdote vermelho não o identifique como um homem tão problemático quanto Sandor ou Rorge, as atitudes de Limo demonstram que uma mudança (para pior) se operou nele desde a última vez em que foi visto – embora isso também possa ser atribuído à mudança geral de tom da própria Irmandade, sob a liderança da Senhora Coração-de-Pedra.

De qualquer forma, me parece claro que a ideia de GRRM foi mesmo a de mostrar que o Cão de Caça continua vivo, embora não na pessoa de Sandor Clegane. Um eventual combate contra o irmão (ou parte dele) seria um total retorno a tudo o que o Irmão Mais Velho descreveu como a vida atormentada de Sandor. Tentando pensar como o autor, isso não faria muito sentido. Embora em Game of Thrones a vingança seja de certa forma glorificada – com cenas em que os personagens “do bem” praticam atos cruelmente violentos contra seus maldosos inimigos exibidas para os urros de êxtase da audiência – o mesmo não acontece em As Crônicas de Gelo e Fogo.

Coveiro de Ilha Quieta
O coveiro de Ilha Quieta. Arte: pojypojy.

No final das contas, me parece que o arco de Sandor já chegou a seu fim em As Crônicas de Gelo e Fogo – que, afinal, está no quinto livro de sete. A passagem em Ilha Quieta envolvendo o coveiro e as falas do Irmão Mais Velho seriam apenas uma forma menos óbvia de mostrar aos leitores mais atentos o destino do personagem.

Esse easter egg, porém, não significa necessariamente que Sandor vá reaparecer e ter mais participações na história, principalmente pela questão da cisão com a personalidade anterior. Fico com a impressão de que a ideia é justamente fechar o arco do personagem indicando que ele agora teria alcançado a paz. Nem tudo em As Crônicas de Gelo e Fogo tem que terminar em um combate “épico”.

Além disso, o caso do outro irmão também é problemático. Na obra de Martin, o Guarda Real tecnicamente não é Gregor Clegane, mas Robert Strong, uma espécie de morto-vivo gigante, diferente de um ser humano convencional. Sem sentimentos, emoções, reações, atitudes ou necessidades naturais de uma pessoa. Gregor, aparentemente, é só a carcaça utilizada para a criação desse guerreiro. Assim, até sob o ponto de vista temático da vingança (se essa fosse a intenção) o confronto teria sido esvaziado, já que Sandor sequer estaria lutando contra o próprio irmão.

O retorno de Sandor à antiga vida e o Cleganebowl seriam o clímax “épico” de um arco de vingança e violência, o que significaria que toda a subtrama criada por Martin – sobre a sobrevivência pacífica de Sandor e a continuidade da violência do Cão de Caça em outras pessoas – teria sido em vão e seria esvaziada de significado.

Conclusão

Embora a ideia de um confronto grandioso entre dois dos maiores guerreiros dos Sete Reinos possa parecer, à primeira vista, um fechamento épico para toda a rivalidade histórica entre os dois irmãos, no final das contas ela encontra vários problemas, tanto de natureza logística quanto temática.

De saída, a teoria incorre em inúmeros empecilhos práticos para explicar como o coveiro de um isolado refúgio religioso, passaria a ser o campeão da Fé dos Sete em Porto Real, em um dos maiores julgamentos por combate do reino. Existem problemas para que a notícia desse julgamento chegue até Ilha Quieta, para que as informações cheguem a Sandor, e na própria natureza dessas notícias (pois elas sequer mencionariam Gregor).

Mesmo admitindo-se que esses problemas logísticos fossem contornados pela narrativa de Martin, a teoria ainda encontra um obstáculo talvez ainda mais crucial: falta a ela substância temática, e, na verdade, o Cleganebowl contradiz frontalmente o significado de um arco já existente em As Crônicas de Gelo e Fogo.

O modo como Martin apresenta o coveiro (e as falas do Irmão Mais Velho a respeito dele) somado à sobrevivência da persona violenta do Cão de Caça em outros personagens soa muito como o fechamento do arco de Sandor Clegane. Um eventual confronto entre ele e Robert Strong – que sequer é Gregor Clegane propriamente dito – desconstruiria toda essa trama, o que seria um enorme desperdício, e contraproducente do ponto de vista narrativo.