O texto a seguir possui spoilers de O Festim dos Corvos,  A Dança dos Dragões e Os Ventos de Inverno. Leia por sua conta.

George R. R. Martin não costuma responder questões gerais sobre As Crônicas de Gelo e Fogo pela internet. Normalmente ele faz isso em convenções ou em leituras e sessões de autógrafos. Mas dessa vez, algo inusitado aconteceu: ele comentou um dos argumentos de uma antiga discussão sobre a infância de Daenerys Targaryen para um leitor, que gentilmente compartilhou a conversa no reddit.

QUE TEORIA É ESSA?

Não é uma teoria com argumentos muito sólidos, mas mais um questionamento sobre onde raios Daenerys passou sua infância antes de ser levada para Pentos: Foi realmente em Bravos como trechos dos livros nos sugerem? E se foi em Bravos, onde exatamente? Logo no primeiro capítulo de Dany em A Guerra dos Tronos, o texto estabelece a ideia de que ela se sente uma princesa pobre, um joguete nas mãos do irmão e uma mercadoria nas mãos de Illyrio Mopatis. Embora vivendo em uma casa confortável, Dany sente que Pentos não é seu lar. E ela lembra de seu lar, o lugar tinha uma porta vermelha e um quarto só dela com um limoeiro do lado de fora da janela. Mas para Viserys o lar era Westeros, onde ele passou parte de sua infância antes de ter que fugir. Daenerys ainda estava na barriga de Rhaella quando teve que fugir com o irmão, portanto Westeros para ela não é uma lembrança. A casa da porta vermelha é.

Dany e Viserys, os jovens dragões exilados. (por Jacqui Davis ©)

Primeiramente sabemos que Willem Darry, cavaleiro e mestre de armas de Aerys II o Rei Louco, foi o homem responsável por levar Dany e Viserys para Bravos, para que eles não tivessem que se entregar à Robert no fim da rebelião. Dany se lembra dele sempre com muito carinho, embora não sejam explícitos os detalhes da jornada de Dany e Viserys de Porto Real para Pedra do Dragão e depois para Cidades Livres. Apenas sabemos que este homem, que era extremamente devoto a casa Targaryen, os ajudou a fugir de Westeros e os criou até onde pôde. Nem Illyrio, nem Viserys (por motivos óbvios) são considerados para Dany como lembranças boas sobre lar e família. A lembrança de família que Dany tem é Willem e a casa com a porta vermelha, onde ele a criou.

A casa da porta vermelha para Daenerys nos livros é uma ideia fixa. É um símbolo de um lugar onde ela se sentia protegida. Até o dia em que Daenerys e Viserys foram tirados dessa casa, para viver em humilhação até encontrarem alguém disposto a investir em sua campanha: Illyrio Mopatis.  Depois disso, Dany passou anos ao lado do irmão ‘pedinte’ até ser vendida como uma escrava para Drogo. Essa temática da escravidão é um tema bastante forte e original de Dany, e a vemos tentando combater o que ela sofreu pessoalmente dentro da sociedade de Essos, lutando contra pessoas iguais a Illyrio. Portanto, tudo o que vem antes disso (no caso sua doce infância na casa da porta vermelha) são memórias doces.

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Sabemos também que, há muitos anos, o príncipe Oberyn Martell viajou para Bravos onde Viserys e Daenerys estavam sendo criados por Sor Willem Darry. Lá, Oberyn e Willem fizeram um pacto secreto, que foi testemunhado pelo Senhor do Mar. Oberyn e Willem prometeram a Viserys a mão de Arianne Martell em troca da ajuda de Dorne em reivindicar o Trono de Ferro para os Targaryens. O nome do Senhor do Mar que testemunhou o pacto não é mencionado nos livros, mas fica implícito que foi ele quem supostamente abrigou Dany e Viserys aos cuidados de Willem. Isso é revelado em A Dança dos Dragões (Dany VII), quando Quentyn Martell apresenta o pacto assinado à Daenerys. Um trecho do capítulo:

Dany desenrolou o pergaminho e o examinou novamente. Bravos. Isso foi feito em Bravos, quando vivíamos na casa com a porta vermelha. Por que aquilo a fazia sentir-se tão estranha?

Então, para todos os efeitos, Dany esteve mesmo em Bravos durante todo esse tempo, não importa qual seja a politicagem por trás disso. Mas um detalhe desenha questões pertinentes. O limoeiro que Dany se lembra de existir do lado de fora da janela de seu quarto.

No manuscrito original de A Guerra dos Tronos – que podemos ler em The Blood of the Dragon, a casa com a porta vermelha ficava em Tyrosh, e não em Bravos. Não é possível que existam limoeiros em Bravos, já que a cidade é bastante fria para produzir esse tipo de fruto. Por alguma razão GRRM decidiu mudar a infância de Dany que originalmente era em Tyrosh (onde a árvore de limão fazia mais sentido), para Bravos. Será que a mudança foi deliberada ou ele esqueceu de checar se a árvore poderia crescer ali também? Acontece. Em Westeros tem batata. Tem elevador vertical. Tem dragões. Mas… Martin não construiu árvores em Bravos. Não existe verde ali.

No primeiro capítulo de Arya em O Festim dos Corvos, quando ela chega na cidade lemos o seguinte:

 Eles não têm árvores, compreendeu. Bravos é toda em pedra, uma cidade cinzenta num mar verde.

Em Sam III de O Festim, ele diz a mesma coisa:

O labirinto de pedra cheio de ilhas e canais que era Bravos, sem mato nem árvores, repleto de estranhos que falavam numa língua que ela não compreendia(…)

E em Sam IV, um diálogo entre Sam e Gilly/Goiva:

– O que fizemos… se eu pudesse tomar uma esposa, preferia ter você do que qualquer princesa ou donzela bem-nascida, mas não posso. Continuo a ser um corvo. Proferi o juramento, Goiva. Fui com Jon para a floresta e disse as palavras diante de uma árvore-coração.
– As árvores nos vigiam – Goiva sussurrou, limpando as lágrimas do rosto de Sam. – Na floresta, elas veem tudo… mas aqui não há árvores. Só há água, Sam. Só água.

George R. R. Martin leva a sério, como qualquer amante de história, a inclusão de new world crops em sua história, mas as vezes rolam uns furos como discutimos aqui em relação as batatas em Westeros. Esse tipo de discussão acaba ficando pouco substancial do ponto de vista narrativo, e trata-se de um detalhe sobre a história e geografia do nosso mundo, mostra a elegância do autor como pesquisador, mas não fala muito sobre a história ficcional em si. Afinal de contas, estações do ano bizarras e seres mágicos deveriam ser o bastante para que a gente conseguisse usar nossa suspensão de descrença. E é aí que entra o contra-argumento. Não se trata apenas de ignorar o clima de Bravos… Por que na verdade, em Bravos existem árvores sim. Em lugares BASTANTE específicos.

“NOS PÁTIOS E JARDINS DOS PODEROSOS”

Até então, muitos leitores contra-argumentavam a questão sobre os limoeiros de Daenerys com uma outra passagem de Sam III em O Festim dos Corvos, onde ele fala justamente por qual motivo um homem rico poderia ter árvores em seu quintal em Bravos:

“- Chega – Tossiu Aemon após alguns goles. – Assim vai me afogar – estremeceu nos braços de Sam. – Por que o quarto está tão frio?
– Já não temos lenha. – Daeron pagara o estalajadeiro preço duplo por um quarto com lareira, mas nenhum deles tinham imaginado a lenha ali tão dispendiosa. Não cresciam árvores em Bravos,  à exceção dos patios e jardins dos poderosos. E os bravosianos não cortavam os pinheiros que cobriam as ilhas exteriores, que rodeavam sua grande lagoa e funcionavam como quebra-ventos  para protegê-los das tempestades. Em vez disso, a lenha era trazida em barcaças, pelos rios e do outro lado da lagoa (…)”

Basicamente, se você é rico, você pode cultivar o que você quiser seja lá onde você more. Winterfell por exemplo tem seu Jardim de Vidro, uma estufa usada para cultivar frutas, verduras e flores no clima frio do norte. Portanto, como uma filha de uma grande dinastia, Dany tinha sua árvore na janela de seu quarto na casa de algum senhor rico nas Cidades Livres.

O Palácio do Senhor do Mar de Braavos, no Atlas das Terras de Gelo e Fogo.

Em outra instância, podemos perceber que Dany cita uma única árvore, e não um jardim inteiro cheio de limões. Uma única árvore de limão poderia provar que era algo realmente único e um capricho de um homem muito rico. Seria ele o Senhor do Mar de Bravos? Justamente o homem que é citado no pacto que Quentyn lhe mostrou?

Então temos a prova de que, se Dany estivesse hospedada na casa do Senhor do Mar de Bravos, ela realmente tinha árvores a sua disposição. No livro de mapas Lands of Ice and Fire podemos ver que Bravos realmente é cinzenta como descrita por Sam, Gilly e Arya. Mas especificamente a Casa do Senhor do Mar possui um imenso jardim frutífero repleto de coisas exóticas, como podemos ver na imagem acima.

Além disso, temos a visão de Dany na Casa dos Imortais em A Fúria dos Reis:

“Conheço esta sala, pensou. Lembrava-se daquelas grandes vigas de madeira e das faces de animais esculpidas que as adornavam. E ali, do lado de fora da janela, um limoeiro! Vê-lo fez o coração de Dany doer de saudade.”

Que rima com o relato de Syrio Forel para Arya em A Guerra dos Tronos:

Escute-me. Os navios de Bravos navegam até tão longe quanto os ventos sopram, até terras estranhas e maravilhosas, e, quando regressam, seus capitães trazem animais bizarros para a coleção do Senhor do Mar. Animais como você nunca viu, cavalos listrados, grandes coisas malhadas com pescoços longos como pernas-de-pau, ratos-porcos peludos do tamanho de vacas, manticoras com espinhos, tigres que transportam as criam numa bolsa, terríveis lagartos que caminham com foices no lugar das garras.

Sabemos então que apenas na casa dos poderosos podiam-se ver árvores em Bravos. Os Senhores do Mar são figuras em Essos conhecidas por viver vidas extravagantes e exóticas, muitas vezes trazendo animais de todos os tipos para viver em suas propriedades. A porta com faces de animais esculpidas é um indício da excentricidade, incluindo quem sabe um belo e singelo limoeiro que poderia sim, no fim das contas, ser de uma casa que Dany viveu em Bravos.

“OK, TEM ÁRVORES. MAS LIMÕES SÓ EXISTEM EM DORNE…”

Em Arya II de A Tormenta de Espadas, Anguy sugere assar um pato com limões da estalagem de Sharma e a mulher se irrita:

– Limões. E onde iriamos arranjar limões? Voce acha que está em Dorne, meu idiota sardento? Por que não dá um pulo lá atrás até os limoeiros e colhe um balde para a gente, e também algumas azeitonas e romãs das boas?

E em Mercy de Os Ventos de Inverno, um dos guardas de Harys Swift fala:

“Sete infernos, esse lugar é úmido” ela ouviu o guarda reclamar. “Estou gelado até os ossos. Onde estão as malditas laranjeiras? Sempre ouvi falar das laranjeiras nas Cidades Livres. Limões e limas. Romãs. Pimentas fortes, noites quentes, garotas com os ventres nus. Onde estão as garotas com os ventres nus, eu te pergunto?”

Mesmo que limões só existam em Dorne (e sabemos que não é verdade). Vamos nos lembrar do pacto que Quentyn revelou a Daenerys. Uma aliança entre Dorne e Bravos poderia render, de fato, um presente exótico das terras da família Martell. Um limoeiro, tão perfumado que a criança Daenerys jamais se esqueceria.

Dany vê no limoeiro um símbolo para o lar e sua infância, e seria bastante conveniente se, na verdade, ele significasse política, estratagemas, casamentos arranjados, guerra.  Algo trágico. Afinal de contas, certo dia Dany foi jogada para fora da casa que ela aprendeu a amar. Por que isso aconteceu, se um pacto sobre seu futuro estava selado? Se Dany estava na casa do Senhor do Mar, ele deveria continuar o trabalho que sor Willem começou. Ele foi testemunha. Ele estava lá na hora de assinar o contrato. Era na casa dele que Dany e Viserys supostamente viveram.

Mas Dany conta que Sor Willem veio a falecer certo dia e que os empregados da casa roubaram todo o ouro Targaryen que lhes restavam e expulsaram ela e seu irmão de lá (o detalhe dos empregados mostra que Dany estava longe de estar em uma casa humilde). Se Dany e Viserys realmente estavam sob os cuidados do Senhor do Mar, porque ele não os socorreu? Será que o Senhor do Mar também morreu? É provável, quando um líder de Bravos morre, outro toma seu lugar. Isso significa guerra. E isso justificaria por qual motivo Dany e Viserys tiveram que fugir. Mas isso é apenas uma série de suposições que nos levaram até aqui.

O que foi que realmente aconteceu quando Willem morreu?

Bem, Daenerys partiu da casa com a porta vermelha aos cinco anos, enquanto Viserys tinha treze. É tão estranho que duas crianças tenham andado sozinhas por anos pelas Cidades Livres durante tanto tempo… Mas parece que George tem planos de nos contar mais sobre tudo isso:

O QUE GEORGE FALOU SOBRE ISSO

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Aqui está o motivo original por termos escrito esse post pra vocês. Um leitor que ainda não se conformou com o fato de existir um limoeiro em Bravos questionou Martin via livejournal sobre isso. Ele fala que o clima de Bravos não sustentaria um limoeiro e questiona se “isso poderá apontar para futuras revelações sobre o passado de Dany”. George  responde: “Bem observado. Sim isso apontará que… bem, aí eu teria que revelar”.

Os editores do Westeros.org confirmaram que foi realmente George quem respondeu ao leitor, e consideram essa uma “não resposta” para a questão. É claro que não é. Mas é animador perceber que Martin tem algo a nos contar nesse sentido.

EM QUAIS CONCLUSÕES ALGUNS FÃS JÁ CHEGARAM QUE NÃO ESSAS APONTADAS ATÉ AGORA?

House of the Red Door por Quisling

 

1. Tem aqueles que acham que Dany e Viserys na verdade estavam na Fortaleza Vermelha esse tempo todo, escondidos por Varys. Por isso a porta vermelha e o limoeiro se justificariam por motivos óbvios. E então Varys os expulsou de lá quando não podia mais cuidar deles e de lá eles realmente foram para as Cidades Livres. A lógica espacial disso é zero, mas vamos em frente.

2. Muitas pessoas acreditam que Dany esteve em Bravos com Willem Darry, mas que a porta vermelha e o limoeiro são algum outro lugar que não Bravos. Que lugar seria esse?

3. Dany era tão pequena quando foi expulsa da casa onde morava que pode ter misturado suas memórias e o limoeiro pode ser de um lugar, a porta de outro. Não necessariamente em outro continente. Aliás, limoeiros poderiam crescer em outras cidades próximas a Bravos: Lys, Myr, Volantis e Qarth.

4. Uma teoria fala que o que Dany vê não são memórias dela, mas de Rhaegar. Porque a morte de Rhaegar e o nascimento de Dany estão fortemente ligados e o destino dos dois estaria ligado. Quando vemos a profecia e o fato de Dany sonhar que é Rhaegar… Bem, esse é outro assunto, bastante viajado e há poucas evidências nesse sentido até então.

5. Outra teoria sugere que Daenerys pode ter passado sua infância em Dorne, por isso o limoeiro, por isso os aromas e comidas apimentadas que ela se lembra. O problema é que não tem como Dany ter passado a infância em Dorne sem que Viserys, oito anos mais velho que ela, tivesse conhecimento.

6. A última das suposições mais populares é aquela que muitos de vocês odeiam e muitos de vocês amam. A de que a porta vermelha com o limoeiro é a Torre da Alegria, em Dorne. E por isso Dany (nãããão) seria (nãããão) irmã (não ouse dizer isso game of thrones br, NÃO!) de Jon. A situação seria bastante inspirada em “Luke e Leia”, por isso muitas pessoas tendem a rejeitar a ideia.

Qual sua opinião sobre isso? Divida com a gente nos comentários. #Lemongate

Fontes de pesquisa: [Reddit, Wiki BR, Westeros.org, Mundo de Gelo e Fogo]