George R. R. Martin

Olá, leitor e leitora! Esta é a 17ª edição de Assim Falou Martin, a seção do Gelo & Fogo em que trazemos declarações e respostas de George R. R. Martin, autor de As Crônicas de Gelo e Fogo. Os registros originais, em inglês, são do Westeros.org, que gentilmente autorizou que os traduzíssemos para o português.

Os relatos publicados hoje são de abril de 2000, e são todos correspondência de George R. R. Martin com fãs. Em itálico, as perguntas dos leitores, e em texto normal, as respostas de George. Ao final, alguns comentários meus sobre as questões e respostas.

Para acessar a coleção completa de AFMs já publicados, com registros desde outubro de 1998, clique aqui. Boa leitura!

O Ramo Vermelho e a Água Negra

Correspondência com fã, enviada por Benjen. 16 de abril de 2000.

Quanto tempo se passou entre o “recuo” de Tywin do Ramo Vermelho e a “Batalha da Água Negra”? Em que momento entre esses eventos ocorre o último capítulo de Catelyn [em A Fúria dos Reis]?

Ah… Claramente você não é fã da minha política de ser intencionalmente vago sobre coisas como tempo e distâncias. Detesto ser jogado contra a parede… mas vou dizer que o capítulo final de Catelyn tem lugar antes da Batalha da Água Negra. Assim como os primeiros capítulos de A Tormenta de Espadas.

A Tormenta de Espadas terminado

Correspondência com fã, enviada por Elio M. García, Jr. 21 de abril de 2000.

A Storm of Swords
Capa da primeira edição americana de A Tormenta de Espadas, de agosto de 2000.

Você não consegue imaginar o quanto estou empolgado por poder dizer a todos vocês que A Tormenta de Espadas finalmente está terminado.

O original está sendo xerocado na Kinko’s neste exato momento, e amanhã provavelmente já terá partido para minhas várias editoras (pessoas), editoras (empresas) e agentes.

Sinto como se tivesse parido um mamute lanudo — foi um bicho GRANDE, com um jeitão sórdido, e cabeludo pra caramba também. Pesa 1521 páginas de manuscrito, umas 350 páginas a mais que A Fúria dos Reis. São 79 capítulos, um prólogo, e um epílogo.

Sinto dizer que menti sobre os quatro casamentos e um funeral. Agora que terminei, percebi que são quatro casamentos, dois funerais e um velório. Quatro julgamentos também. E três dragões, quatro ursos, muitos mamutes, um bando de corvos, e uma tartaruga de tamanho incomum. Mais batalhas, duelos com espadas, e mortes do que consigo contar, mas dois nascimentos também, só para nos lembrar de que a vida continua.

Tem muito trabalho depois disso, é claro; revisões editoriais, copidesque, revisão, prova de granel, sem contar os mapas e apêndices, para os quais agora devo me voltar. Mas o mamute pelo menos está em pé; o resto é só uma questão de polir as presas dele.

Obrigado a vocês todos pela paciência, e pelo entusiasmo contínuo. Espero que vocês sintam que o livro valeu a espera.

Várias perguntas sobre As Crônicas de Gelo e Fogo

Correspondência com fã, enviada por Kay-Arne Hansen. 21 de abril de 2000.

Presumo que a Patrulha da Noite não pague aos irmãos negros nenhum ordenado em moeda pelos serviços – eles recebem as provisões de graça, afinal de contas. O que eu estava pensando… é como os Irmãos pagam as putas em Vila Toupeira? Já que eles não usam moeda, eles pagam com recursos furtados das reservas da Patrulha?

Acho que algumas mulheres numa região tão ao norte poderiam escolher essa vida (já que a vida é relativamente mais difícil que no sul), mesmo se não forem pagas em moeda…

Vila Toupeira
Vila Toupeira, por Paolo Puggioni. © Fantasy Flight Games.

Grande parte das transações em Vila Toupeira são pagas com permuta, certamente, mas há moeda na Muralha… não muita, porém, especialmente nos dias de hoje… (ver resposta seguinte). Um pouco do dinheiro vem para o norte com os irmãos de alto nascimento… alguém como Sor Waymar Royce sem dúvida chegou com um bom dinheiro, e imagino que as famílias enviem presentes e coisas do tipo também… e há o comércio que vai e vem de Atalaialeste

Segundo: a Patrulha da Noite recebe financiamento e recursos de Winterfell, da coroa, ou os dois?

Um pouco dos dois, certamente… mas tradicionalmente o maior sustento da Patrulha vem da Dádiva, um grande cinturão de terra imediatamente ao sul da Muralha, que é de propriedade da Patrulha. Há mais sobre isso em A Tormenta de Espadas. A parte mais ao norte dessa área era a “Dádiva de Brandon”, a parte mais ao sul a “Nova Dádiva”. Historicamente a Patrulha cultivava a primeira (com os intendentes) e taxava a segunda.

É claro, tanto o declínio da Patrulha em tamanho quanto o despovoamento da Dádiva causaram enormes impactos… mas, de novo, há coisas sobre isso em Tormenta.

Terceiro: Como as aspirantes a septãs e septões da Fé são treinados nesse ofício? Há alguma academia/centro religioso ao qual eles podem ir (talvez no Grande Septo em Porto Real), ou são treinados pelos septões e septãs locais?

Ambos, imagino eu. Alguns septões locais não são muito instruídos (como os sacerdotes na Europa medieval), mas há grandes centros de treinamento religioso, e o Grande Septo de Baelor certamente seria notável entre eles.

Quarto: onde (em relação a Westeros) fica o Porto de Ibben?

O Porto de Ibben fica em Ibben, uma grande nação insular no Mar Tremente, o mar polar que fica ao norte do grande continente onde podemos encontrar as Cidades Livres, o Mar Dothraki, Qarth, os mercados de escravos da Baía dos Escravos etc. Sim, farei um mapa um dia… mas não em Tormenta. Se você visualizar Westeros como uma grande Grã-Bretanha e o continente oriental como a Europa continental, Ibben é meio que onde a Finlândia estaria… exceto pelo fato de que não há Escandinávia, nada ao norte do Báltico, a não ser oceano.

Re: Parabéns!

Correspondência com fã, enviada por Jeff. 29 de abril de 2000.

Fiquei sabendo pelo Ran [Elio] que A Tormenta de Espadas está terminado. Deve ser um sentimento ótimo, e estamos todos ansiosos por ele, particularmente depois dos quatro capítulos “teaser” que alguns de nós recebemos. Enfim, espero que você tenha umas férias merecidas na agenda.

Férias? O que é isso? HAH. Não, agora tenho que editar, fazer o copidesque, fazer as provas de leitura, e calcular meus impostos (pedi uma prorrogação do prazo para terminar o livro), e tenho mais alguns outros projetos MUITO atrasados e que já estão chiando, e mais… ah… é uma história muito, muito triste.

Vou para o Havaí em julho, na Westercon. Aí terei férias. Enquanto isso, agradeço pelos parabéns. Às vezes parecia que o King Kong estava nas minhas costas, e que ele acabou de descer.

Você deve saber que mesmo depois de tanto tempo, ainda estamos debatendo coisas como quem estava por trás da tentativa de assassinato de Bran. Sem falar em tentar descobrir os quatro casamentos, quatro julgamentos, e dois funerais.

O problema com toda essa especulação é que alguns de vocês estão fadados a descobrir as respostas antes que eu as revele… e outros podem até chegar a respostas melhores que as minhas. Bom, são os riscos que se corre com um projeto como esse.

Adaga de aço valiriano
A adaga de aço valiriano e osso de dragão, usada na tentativa de assassinato de Bran. Arte: Sara Biddle. © Fantasy Flight Games.

Vou dizer que Tormenta vai resolver a questão de Bran e a adaga, e também do assassino de Jon Arryn. Algumas outras questões não vão ser resolvidas… e espero dar a vocês alguns novos quebra-cabeças para se ocuparem.

Devo alertar que os quatro julgamentos não são necessariamente o tipo de coisa que um americano do século XX chamaria de julgamento. Não espere que o Perry da Casa Mason apareça citando detalhes da lei como argumentos.

Obrigado de novo por dar a todos nós uma história realmente de primeira linha, e por contá-la tão bem.

O prazer é todo meu. Obrigado pelo interesse e pelo entusiasmo contínuos.

A tentativa de GRRM de manter a narrativa inexata e nebulosa no que concerne às distâncias e à passagem do tempo é algo marcado e intencional desde o início dos livros, mas que se tornou crescentemente difícil para o autor à medida em que os anos se passaram. Pelo fato de os intervalos entre as publicações dos volumes serem grandes, os leitores tiveram (e têm) tempo de sobra para escavá-los até os mínimos detalhes, e às vezes alguns problemas na cronologia são percebidos. Em alguns casos, principalmente nos primeiros livros, os fãs percebiam esses problemas e Martin ficava sabendo deles, e alguns detalhes foram corrigidos em edições posteriores.

GRRM gosta de dizer que “Alguns autores gostam de escrever, dizem. Eu não. Gosto de ter escrito.”. Esse sentimento fica claro no e-mail dele a Elio García, em que informa que (finalmente) terminou o terceiro livro de As Crônicas de Gelo e Fogo, A Tormenta de Espadas. Como já vimos em outros SSMs/AFMs, a ansiedade dos leitores à época não era diferente da que existe agora, e Martin também sentia como se o livro fosse um grande peso em suas costas. À época, porém, o intervalo entre o segundo e terceiro livros foi de apenas 2 anos.

Um detalhe interessante nessa mensagem é a menção a uma tartaruga de tamanho incomum. Pesquisei e tentei me lembrar se algum animal desse tipo realmente aparece em Tormenta, mas não realmente não consegui. Em A Dança dos Dragões, publicado 11 anos depois, porém, quando o Donzela Tímida navega pelo Rhoyne em Ny Sar, uma tartaruga gigante aparece, e é identificada por Yandry como o Velho do Rio, uma divindade roinar (mencionada anteriormente por Garin, em O Festim dos Corvos). Será que ele ia aparecer já em Tormenta, mas foi excluído no processo de edição?

A pergunta sobre o dinheiro na Patrulha da Noite e o comércio e a prostituição em Vila Toupeira é um exemplo do que me faz apaixonado por essa história: é o nível de detalhe e a imersão que propiciam que questões como essa surjam na mente dos leitores, e possam ter respostas lógicas. Me pareceu claro, pela resposta de George, que ele sequer tinha pensado nisso até aquele momento, mas ainda assim considero a resposta razoável. A localização de Ib e Ibben ficou clara anos mais tarde, com a publicação de mapas de Essos.

A pergunta sobre o assassino de Bran aparece novamente, como já acontecera em setembro de 1999. À época, Martin já dissera que o assunto seria esclarecido em Tormenta. Curiosamente, até hoje a questão é motivo de dúvidas entre vários leitores: muitos se recusam a acreditar, se a informação não estiver praticamente soletrada nos livros. No terceiro livro, porém, Tyrion e Jaime chegam à conclusão de que o mandante do assassinato foi Joffrey, buscando a aprovação do pai Robert (após ouvi-lo dizer que alguém poderia acabar com o sofrimento de Bran). Nosso colega Roberto Mattos escreveu um ótimo artigo sobre o assunto em seu blog ASOIAF BR.

Ficamos por aqui com a 17ª edição de Assim Falou Martin. A caixa de comentários para discussão das falas de GRRM está aberta abaixo. Para acessar a coleção completa de AFMs, clique aqui. A edição 17 está a caminho.