Olá! Está é a edição número treze de Assim Falou Martin, a editoria em que o Gelo & Fogo traz declarações de George R. R. Martin, autor de As Crônicas de Gelo e Fogo. Os registros desta edição estão originalmente no Westeros.org, que gentilmente autorizou que traduzíssemos para o português.

Os relatos publicados hoje são de dezembro de 1999, e são correspondência de George R. R. Martin com fãs e um post em fórum. Tentamos, na tradução, manter a escrita original, na medida do possível. As ilustrações são por nossa conta (e claro, dos autores). Ao final, alguns comentário meus sobre as respostas.

Para acessar a coleção completa de AFMs publicados, clique aqui. Boa leitura!

Edric Dayne

Correspondência com fã, enviada por Moreta. 2 de dezembro de 1999.

Qual é o parentesco de Edric Dayne com Sor Arthur e Lady Ashara? Vamos conhecê-lo em A Tormenta de Espadas?

Edric Dayne é o sobrinho de Sor Arthur e Lady Ashara.

(Ran, também perguntei a ele por que Dany quereria invadir os Sete Reinos se ela é estéril (sem herdeiro, sabe). Ele respondeu que sem comentários a isso.)

The Dragonbone Chair
Capa de “The Dragonbone Chair”, de Tad Williams, grande influência em “As Crônicas de Gelo e Fogo”. Reprodução.

Josua e Elyas

Post em fórum. 4 de dezembro de 1999.

Sou um grande fã de Tad Williams. Embora eu tenha amado Tolkien por muitos anos, eu praticamente havia parado de ler fantasia moderna, já que muito dela era coisas derivadas péssimas. Então experimentei o DRAGONBONE CHAIR de Tad, e sentei e disse a mim mesmo, “Sim! Este gênero pode ser ótimo, nas mãos de um bom autor.”

Provavelmente eu nunca teria escrito AS CRÔNICAS DE GELO E FOGO sem essa inspiração.

Então, sim, “Josua e Elyas” definitivamente são um uma pequena reverência a um dos meus autores de fantasia favoritos. E aqui vai uma dica… há inúmeras homenagens parecidas a outros favoritos enterradas no texto, se você puder achá-las.

Dragões em Westeros

Correspondência com fã, enviada por Omer. 11 de dezembro de 1999.

Em “O Cavaleiro Andante” dragões antigos são mencionados, de milhares de anos. Havia dragões em Westeros antes de os Targaryens os trazerem, ou os Targaryens trouxeram os esqueletos de dragões antigos com eles?

Houve dragões por toda parte, uma vez.

A pergunta seguinte, que entendo que pode ser algo que você queira guardar para os livros, é o que aconteceu com os dragões fora de Westeros? Se entendi corretamente, os alquimistas dizem que não havia mais dragões em lugar nenhum. É o caso?

Não há mais dragões conhecidos… mas esse é um período medieval, e grandes partes do mundo ainda são terra incognita, então há sempre relatos de dragões vistos em lugares longínquos e e misteriosos. Os meistres costumam desconsiderá-los.

Daeron Targaryen
Daeron Targaryen, o verdadeiro prometido de Olenna Redwyne. Arte: Karla Ortiz, para “O Mundo de Gelo e Fogo”.

Lady Olenna e os Tyrells no Água Negra

Correspondência com fã, enviada por Elio M. García, Jr.. 17 de dezembro de 1999.

A quem a Rainha dos Espinhos foi prometida? A idade dela é meio indeterminada, mas se ela tem 85 anos, imagino que poderia ser o próprio Aerion Targaryen. O comentário dela sobre ele é o que me faz pensar isso. Por outro lado, se ela for mais jovem, suponho que seja um dos filhos de Egg.

Ela não é tão velha. Lembre-se, ela é mãe de Mace Tyrell, não avó. Está com uns sessenta e algo, eu diria. Eu disse que ela era mais velha no manuscrito? Se sim, tenho que voltar e consertar isso. Sobre a promessa… essa é uma história a ser contada.

“Uma fanfarra de cornetas saudou cada um dos heróis quando ele pisou entre as grandes portas de carvalho. Arautos clamaram seu nome e feitos para todos ouvirem…”

Aos Tyrells é dado um lugar de honra. Os arautos estão recontando feitos no campo de batalha do Água Negra ou algo mais geral (‘nomeado cavaleiro aos 15 anos, derrotou o Regicida na disputa final no dia do nome de Joffrey, etc.’)? Isso tem a ver com toda aquela cois ado fantasma de Renly, entendo, mas se tanto Loras quanto Garlan têm uma lista enorme de feitos da batalha recitada quando entram no salão…

O Cavaleiro das Flores lutou gloriosamente na Água Negra, e não tenho dúvida de que os arautos mencionaram isso, mas seus outros feitos marciais também foram mencionados, sem dúvida.

O Dente e o tyroshi

Correspondência com fã, enviada por Kay-Arne Hansen. 17 de dezembro de 1999.

Dente Dourado
O Dente Dourado, sede casa Lefford. Arte: Paolo Puggioni © Fantasy Flight Games.

Primeiro; sor Forley Prester mandou alguma parte dos 4000 mil homens dele no Dente Dourado a Sor Stafford Lannister em Cruzaboi, para aumentar a tropa dele? Ou todos foram mantidos no Dente por Prester?

Essa é uma guarnição grande demais para um castelo pequeno como o Dente, então suponho que ele tenha mandado muitos deles para Sor Stafford. Veteranos testados para ajudar os recrutas verdes e crus… é claro, isso não deu muito certo…

Segundo; o que Robb fez com o mercenário tyroshi que abaixou seu estandarte em Correrrio?

Não sei o que Robb fez com ele… mas eu esqueci completamente dele, fico vermelho por admitir.

Agora que você me lembrou… Imagino que ele tenha mantido a maioria deles consigo quando foi para o oeste. Tendo marchado recentemente pelas terras ocidentais quando eles estavam do outro lado, eles teriam um certo valor.

Também suponho que ele tenha sofrido algumas deserções… esses homens não estavam presos a ele por juramento ou lealdade antiga, e havia muito a pilhar…

Há no mínimo um fora-da-lei tyroshi nas terras fluviais em A Tormenta de Espadas… grande chance de ele ser um desertor, embora se foi Jaime ou Robb que ele desertou, não poderia te dizer agora…

Propriedade de terras e casamento em Westeros?

Correspondência com fã, enviada por Maia B. 19 de dezembro de 1999.

Estou com a impressão de que, ao contrário da Idade Média histórica, as propriedades de terra em Westeros não são nem divididas entre diversas crianças, nem combinadas. Basicamente, o herdeiro herda tudo e se outro título também vem, ele vai para um irmão até então sem terras. Estou certa?

Mais ou menos. As propriedades raramente são divididas. Nem combinadas, via de regra, embora uma pessoa possa plausivelmente ostentar mais de um título. O outro grande fator é o lorde atual – se alguém decidisse fazer algo incomum com suas propriedades, isso teria peso. (Também pode causar disputas, porém)

Ainda assim ser um filho sem terras de uma família nobre não impede alguém de se casar (como impedia na Idade Média). Então, um lorde em Westeros está obrigado por lei e costumes a prover para seus parentes com uma parte designada de sua renda?

Não. Alguns fazem isso (os Freys, os Lannisters). Alguns não (Gregor Clegane com Sandor). Alguns põe seus parentes excedentes para trabalhar (os Freys novamente) no castelo, ou dão a eles propriedades vassalas (os Starks e Targaryens).

E se sim, por que não há parentes excedentes mandados para a Fé, Cidadela, etc. para conservar a fortuna da família?

Casa Templeton
Brasão dos Templeton, uma poderosa casa de cavaleiros com terras. Fonte: A Wiki of Ice and Fire.

Alguns são. Os Freys novamente. Os Tyrells também.

Também, e quanto aos dotes?

O que tem eles?

E qual é a diferença entre cavaleiros com terras (Sor Gregor Clegane) e lordes bem pequenos (por exemplo Lorde Baelish sênior)?

O título. Um lorde tem poderes maiores de governança sobre seus domínios (o poder de forca e cova, como era chamado em algumas culturas medievais). Lorde geralmente seria considerado o título de mais prestígio. Um cavaleiro é (ou era) um homem de batalha, porém; o título tem seus significados marciais e religiosos específicos – e em uma cultura que reverencia o guerreiro, seu próprio prestígio. Nem todos os lordes são cavaleiros.

Um cavaleiro com terras poderia plausivelmente ter propriedades maiores que um pequeno lorde.

Os Bórgias

Correspondência com fã, enviada por Elio M. García, Jr.. 21 de dezembro de 1999.

A HarperCollins do Reino Unido acabou de me mandar cópias de um panfleto publicitário que circularam no jornal GUARDIAN. Ele inclui uma “Linha do tempo” de marcos da ficção científica e da fantasia pela história, e incluíram A GUERRA DOS TRONOS (e deveriam, eles é que publicam por lá).

A melhor parte, porém, é a descrição curta, na qual eles chamam AS CRÔNICAS DE GELO E FOGO de “os 12 CÉSARES da literatura fantástica, com personagens tão venenosos que poderiam devorar os Bórgias.”

Devo dizer, ser comparado a Suetônio certamente vence ser comparado a David Eddings, mas minha parte parte variada é “PERSONAGENS TÃO VENENOSOS QUE PODERIAM DEVORAR OS BÓRGIAS!” Fico imaginando, com ketchup ou molho apimentad?

Baratheons e Targaryens

Correspondência com fã, enviada por Elio M. García, Jr.. 22 de dezembro de 1999.

[A resposta a este e-mail diz respeito a uma pergunta sobre uma frase de Renly (citada por mim e incluída na resposta de Martin) sobre ae justificativa para a pretensão Baratheon ao trono após a rebelião.]

“Oh, havia conversas sobre laços de sangue entre Baratheon e Targaryen, sobre casamentos há cem anos, sobre segundos filhos e filhas mais velhas.”

Ummmm… acho que você está dando muito mais importância a essa fala do que ela merece. Renly era uma alma despreocupada e desleixada, e ele estava falando numa generalização ampla ali. Ele quase não se importava com a base legal da pretensão de seu irmão, como o contexto deixa claro; se dependesse dele, a única coisa que importaria é o tamanho do seu exército.

Edric Dayne, que no primeiro e segundo livros havia sido mencionado apenas nos apêndices, realmente aparece em A Tormenta de Espadas (que seria publicado no ano seguinte a essas perguntas). O rapaz, escudeiro de Beric Dondarrion, faz parte da Irmandade sem Estandartes, e interage com Arya quando esta é apreendida pelo grupo. Ele diz a ela que é “irmão de leite” de Jon Snow, pois a mãe dele seria a ama-de-leite de Wylla, que serve sua família há anos. Por acaso, o fora-da-lei tyroshi que George diz que apareceria em A Tormenta de Espadas em outra resposta, também é um membro da Irmandade: Pello, popularmente conhecido como Barba-Verde.

A influência de The Dragonbone Chair (e da trilogia Memory, Sorrow, and Thorn como um todo) em As Crônicas de Gelo e Fogo provavelmente merece um post específico, mas já abordei brevemente essas referências à obra de Tad Williams (e a outras obras) em um artigo antigo aqui no Gelo & Fogo, que trata das referências e homenagens nas Crônicas de Gelo e Fogo.

A resposta de George sobre os dragões pode suscitar dúvidas nos leitores sobre o aparecimento de outros dragões na história, mas minha interpretação é a de que ele responde isso para manter a ambientação de incerteza sobre fatos que ocorrem em confins distantes do local onde sua história se passa.

O história do ex-prometido de Olenna Tyrell foi contada 15 anos depois dessa pergunta, em O Mundo de Gelo e Fogo. No livro, o leitor descobre que ele era realmente um dos filhos de Aegon V “Egg” Targaryen (como suspeitara Elio): Daeron. Ele seguiu o exemplo de seus três irmãos mais velhos (Duncan, Jaehaerys e Shaera) e quebrou o noivado com Olenna quando tinha dezoito anos. Daeron, um guerreiro capaz, tinha como companheiro o também cavaleiro Jeremy Norridge.

A declaração de George de que um cavaleiro com terras poderia plausivelmente ser mais poderoso que um pequeno lorde é verificada mais tarde nos livros. Um dos membros dos Senhores Declarantes, um grupo de alguns dos mais poderosos nobres do Vale de Arryn que se opõe a Petyr Baelish, é Symond Templeton. Embora seja uma casa cavaleiresca, a Casa Templeton é descrita como tão poderosa quanto muitos lordes, e pode convocar facilmente mil homens para batalha.

Martin se divertiu com a descrição que o Guardian e a HarperCollins fizeram de sua obra (a citação exata pode ser encontrada aqui, em inglês), e fez menção a ser comparado a Suetônio, o historiador romano do século II que escreveu a famosa De vita Cesarum (“A vida dos Césares”), coleção de biografias de Júlio César e dos primeiros imperadores romanos popularmente conhecida como Os Doze Césares. Os relatos de Suetônio eram frequentemente sensacionalistas e tendentes a incorporar “fofoca da corte” como realidade histórica, então intrigas e tramas violentas pareciam lugar-comum na corte romana. Tratei da relação de George com os historiadores antigos e como eles são emulados em sua posterior história imaginária em uma seção do artigo Vidas paralelas, que aborda a influência da Roma antiga em As Crônicas de Gelo e Fogo.

A resposta de Martin sobre a fala de Renly deixa claro como o personagem é imaginado por ele, com total desprezo às tradições e motivado simplesmente pela grande opinião que tinha de si mesmo e a oportunidade que se apresentava diante de um vácuo de poder. Ironicamente, o irmão mais novo Baratheon desconsiderava a legalidade das pretensões quando isso era conveniente para seus anseios, pois acreditava poder passar por cima de tudo isso com o enorme exército que arregimentou com seus vassalos e o apoio dos Tyrell. Convenientemente, porém, ignorava que seu próprio acesso a tão grande exército se devia à legalidade derivada do sobrenome Baratheon que ostentava, e da própria sociedade estruturada em anos de vassalagem transmitida por sucessão.

E o AFM número 13 chega ao fim. Em breve, o Assim Falou Martin número 14. A caixa de comentários para discussão da edição 13 de falas de George R. R. Martin está aberta abaixo. Para acessar a coleção completa, clique aqui.