Olá! Esta é a sexta edição de Assim Falou Martin, a editoria do Gelo & Fogo em que trazemos declarações de George R. R. Martin, autor de As Crônicas de Gelo e Fogo. Os registros desta edição estão originalmente no Westeros.org (março, abril), que gentilmente autorizou que traduzíssemos para o português.

Como os leitores assíduos da editoria podem ter observado, em fevereiro de 1999, George disse que sairia em turnê para divulgar A Fúria dos Reis, e por isso não teria muito tempo para conversar com os leitores no mês seguinte. Por isso, os relatos publicados hoje são de março e abril de 1999, e incluem postagens de George em fóruns e correspondência com fãs. Tentamos, na tradução, manter a escrita original, na medida do possível. As ilustrações são por nossa conta (e claro, dos autores).

Para acessar a coleção completa de AFMs publicados, clique aqui. Boa leitura!

Livro de artes

Post em fórum. 3 de março de 1999.

[Sumário: Yasmina perguntou se havia algum plano para um livro de artes dos personagens, como foi feito para os livros de Pern de McCaffrey, para As Crônicas de Gelo e Fogo]

Não há nenhum plano para um livro de artes no momento, receio.

Deaths of Lucerys and Arrax Chase Stone
A morte de Lucerys Velaryon e Arrax. Arte: Chase Stone para O Mundo de Gelo e Fogo.

Dragões

Post em fórum. 3 de abril de 1999.

Dragões são naturalmente mais longevos que seres humanos, certamente – mas dado o fato de que muitos deles estão envolvidos em guerras, um bom número dos dragões Targaryen não viveram nada perto de uma longevidade natural, mas morreram “jovens” por violência. Isso foi especialmente verdadeiro durante a “Dança dos Dragões”, em que ambos os lados usaram dragões em batalha uns contra os outros.

Haverá mais informações sobre os dragões Targaryen em volumes futuros, mas não tenho certeza se irei longe o bastante para fazer uma genealogia de dragões. Obrigado pela sugestão, porém.

Sonhos e escrita

Post em fórum. 3 de abril de 1999.

Meus sonhos de verdade são geralmente incoerentes demais para terem alguma utilidade em minha ficção.

Porém, com frequência me vejo pensando em minhas histórias logo antes de dormir, enquanto estou deitado na cama, e às vezes ideias, cenas e plot twists vêm a mim em profusão. De vez em quando até me lembro deles no dia seguinte…

Sobre Sansa

Correspondência com fã, enviada por Kay-Arne Hansen. 10 de abril de 1999.

Sua questão a respeito de Sansa…

Da forma como vejo, não é um caso de tudo ou nada. Nenhuma pessoa única é a culpada pela queda de Ned. Sansa teve um papel, certamente, mas seria injusto colocar toda a culpa nela. Mas também seria injusto isentá-la. Ela não tinha conhecimento de todos os planos de Ned a respeito de Stannis, os mantos dourados etc… mas ela sabia mais do que só que o pai planejava que ela e Arya escapassem de Porto Real. Ela sabia quando elas deveriam sair, em que navio, quantos homens estariam na escolta, quem comandaria, onde Arya estava naquela manhã etc… tudo isso foi útil para Cersei planejar e escolher o momento de agir.

A conversa de Ned com Mindinho foi um ponto de inflexão, embora não estou certo se diria que foi o ponto de inflexão. Houve outras decisões cruciais que facilmente teriam mudado tudo se tivessem sido tomadas de forma diferente. Você menciona a recusa de Ned a Renly, que foi igualmente crítica. E há Varys a se levar em conta, bem como um jogador menor mas crucial de quem todos esquecem – Janos Slynt, que poderia ter escolhido apenas cumprir seu dever ao invés de vender os mantos dourados a quem pagasse mais.

Então… no final das contas, suponho que minha resposta seria que não existe um vilão único na obra que causou tudo, mas ao invés disso uma boa meia dúzia de agentes cujas ações foram em parte responsáveis pelo que aconteceu.

Espero que ajude.

(E me deixe acrescentar que sempre fico admirado ao ser lembrado do quão ferozmente alguns de meus leitores discutem essas questões. É gratificante saber que tenho leitores que se importam tanto, apesar de, para dizer a verdade, às vezes ter o sentimento assustador de que vocês conhecem esses livros melhor que eu…)

Casa Stark Robb
Brasões da Casa Stark (cima) e pessoal de Robb Stark (baixo). Fonte: A Wiki of Ice and Fire. CC-BY-SA.

Heráldica em Westeros

Correspondência com fã, enviada por Elio M. García, Jr. 13 de abril de 1999.

Devo dizer… que as regras de heráldica são bem mais flexíveis nos Sete Reinos do que se tornaram na baixa Idade Média do mundo real. Não existem “leis” de heráldica per se, não existe uma academia de arautos para o cumprimento de regras, nem regulações formais sobre cadência e diferenciação. Então cavaleiros individuais e lordes têm uma certa liberdade para ostentar os escudos que preferirem e mexer nos emblemas de suas casas… ou não, como pode ser o caso. Assim, o Grande e o Pequeno Walder, em Winterfell, dividem seus escudos e sobretudos com as armas das casas de suas mães e avós, embora eles pudessem legalmente vestir as torres Frey sem qualquer adorno. Todos os três filhos de Mace Tyrell têm o direito de ostentar a rosa de Jardim de Cima, e às vezes o fazem… mas quando dois ou mais deles estão lutando juntos no mesmo campo, você frequentemente vê Sor Garlan (o segundo filho) com duas rosas em seu escudo, e Sor Loras (o terceiro) com três. Também há o caso do harpista/cavaleiro Pearse Caron em “O Cavaleiro Andante”, que escolheu montar no torneio com seu emblema pessoal (uma harpa) em seu escudo, e os rouxinóis dos Caron nos ornamentos e no sobretudo, e é claro, Raymun Fossoway na mesma história, que dá à luz aos Fossoways da maçã verde quando rompe com seu primo.

Robb Stark fez algo parecido quando partiu de Winterfell em A GUERRA DOS TRONOS; você pode se lembrar de que o escudo dele ostentava uma cabeça de lobo, não o lobo a correr que aparece nos estandartes Stark. Alguns dos velhos Reis do Norte também tinham suas variantes pessoais, sem dúvida, embora eu ainda não tenha decidido quais eram.

Esse tipo de coisa acontecia o tempo todo na Idade das Trevas e na Alta Idade Média, em que a heráldica não era regulada e era muito uma questão de escolha individual. Só mais tarde é que tudo ficou formalizado.

O escudo de Loras

Correspondência com fã, enviada por Elio M. García, Jr. 15 de abril de 1999.

Aquela nota sobre Loras e Garlan portando três e duas rosas respectivamente quando lutam juntos é bastante interessante. Suponho que isso signifique que Garlan participou do torneio de Ponteamarga? A ausência de qualquer menção sobre ele sugere que ele não estava lá.

Não, Sor Garlan não estava em Ponteamarga. Loras deve ter simplesmente decidido usar o escudo com três rosas naquele dia. Não vejo Garlan como tão caçador de glórias quanto o irmão caçula, então torneios não são a dele.

Seis livros

Post em fórum. 20 de abril de 1999.

Seis. Definitivamente seis. Não mais do que seis.

Seis vão me permitir contar a história que quero contar; três não permitiam.

Mas tenho outras histórias que quero contar também, nesta vida.

A Clash of Kings capa
Arte da capa da primeira edição de A Clash of Kings, por Steven Youll.

Arte de capa

Post em fórum. 20 de abril de 1999.

Como todos os escritores, com pouquíssimas exceções, não tenho absolutamente nenhum controle sobre as capas de meus livros. A arte é largamente o território do artista e do diretor de arte, com alguma interferência do editor.

A Dance with Dragons

Post em fórum. 20 de abril de 1999.

Ouvi um bom rumor sobre A DANÇA DOS DRAGÕES. Ouvi dizer que será o quarto livro da série. O terceiro é A TORMENTA DE ESPADAS.

Ned e a Patrulha da Noite

Post em fórum. 22 de abril de 1999.

Se Ned tivesse tomado o negro…

… teria sido um romance diferente.

Bestseller

Post em fórum. 22 de abril de 1999.

Sim, A FÚRIA DOS REIS vendeu consideravelmente melhor do que A GUERRA DOS TRONOS. Essas séries tendem a crescer.

Foi best-seller do NY TIMES, o que GUERRA não foi. Também fez parte de muitas outras listas.

Porém, no negócio editorial considera-se indelicado perguntar a um escritor sobre o quanto seus livros venderam… como perguntar a uma pessoa o quanto ela ganha quando você acabou de conhecê-la.

Bibliografia

Post em fórum. 22 de abril de 1999.

Espero entregar A TORMENTA DE ESPADAS até o fim do ano, para publicação no verão de 2000.

Quanto a meus livros antigos, confira no site em: http://www.georgerrmartin.com/bibliography

Gênesis

Post em fórum. 24 de abril de 1999.

O primeiro capítulo de A GUERRA DOS TRONOS veio a mim de uma vez, quando eu estava bem no começo de um romance de ficção científica totalmente não-relacionado que vinha planejando há um bom tempo. Sentei e o escrevi, sem nenhuma concepção de aonde ele levaria.

Tourney at King's Landing
Torneio em Porto Real, na era Targaryen. Arte: Marc Simonetti.

Regras de torneios

Correspondência com fã, enviada por Elio M. García, Jr. 29 de abril de 1999.

Pergunta interessante sobre as diferentes regras de torneios vistas em “Cavaleiro Andante” e nos romances.

Não foi tanto uma questão de algum rei mudar as regras, como você arriscou, mas mais de as próprias regras serem muito variáveis. Os torneios medievais nunca foram controlados por um conjunto único de regras e criadores de regras, como o futebol americano da NCAA ou a Major League Baseball ou até (arrepio) o boxe. Em essência, cada torneio tinha suas próprias regras. O lorde ou rei que estava organizando o evento geralmente escolhia o formato do torneio no sentido mais amplo, e então nomeava um “mestre dos jogos” para organizar o evento e tomar todas as decisões de “rodapé”.

Os primeiríssimos torneios eram melees na maior parte, disputados por milhas e milhas de florestas por equipes de cavaleiros. Era uma batalha, essencialmente, embora com armas cegas (geralmente). As listas vieram bem depois, e a justa formalizada como conhecemos por IVANHOÉ e outras fontes populares. Mas mesmo então, não havia padronização. Às vezes eles ainda lutavam em equipes; cinquenta escoceses montando em um campo contra cinquenta ingleses. Às vezes havia desfiles muito elaborados, como um tal “Torneio da Árvore Dourada”, em que uma equipe de campeões tinha que defender a árvore em questão de todos os que se aproximassem, cada um deles tentando arrancar uma folha (as folhas de ouro eram folha de ouro, por assim dizer).

No mundo real, os arautos foram assumindo grande parte da responsabilidade pelos torneios com o passar do tempo, e nos séculos XV e XVI as coisas estavam ficando bastante formalizadas… não apenas em torneios, mas em relação a todas as formas de cavalaria e heráldica. Antes disso, porém, havia muito mais diversidade.

No caso dos Sete Reinos, basicamente estou usando o modelo inicial e mais diverso. Ao longo dos seis livros (e quaisquer histórias adicionais de Dunk & Egg que eu venha a escrever), pretendo mostrar uma boa variedade de torneios.

Sobre os que já foram mostrados… bem, o torneio da Mão em Porto Real foi organizado às pressas, por um capricho de Robert, então foi relativamente pequeno, o que permitiu o formato de mata-mata, em que os oponentes são escolhidos simplesmente pelo sorteio, e apenas o campeão permanece no fim. Também usei o estilo de melee todos-contra-todos até-o-último-homem, que não existia no mundo real, que eu saiba (melees eram batalhas de mentira disputadas por equipes), mas que achei que oferecia possibilidades interessantes para um livro de fantasia.

Em Vaufreixo, ao invés do mata-mata, usei o formato básico de IVANHOÉ de campeões-contra-desafiantes, que servia melhor à história (queria que Dunk tivesse que arriscar tudo o que tinha ao disputar contra um dos cinco campeões, ao invés de simplesmente ter um oponente sorteado e talvez ter uma pausa. Se os campeões são tão formidáveis quanto os da Bela Donzela eram em Vaufreixo, os desafiantes encaram uma tarefa muito mais difícil do que se puderem ser sorteados contra qualquer adversário do campo). E confesso, sempre amei a cena em IVANHOÉ em que o Cavaleiro Desonrado cavalga pela fila e derruba todos os cinco escudos normandos, e quis fazer minha própria versão disso.

O torneiozinho de Renly foi novamente um puro melee todos-contra-todos, porque foi um negócio bem improvisado. O formato todos-contra-todos, com suas alianças e traições, me permitiu tanto mostrar um pouco do sentimento popular contra Brienne, quanto as habilidades bastante formidáveis dela.

Brienne de Tarth
Brienne vence o melee em Ponteamarga. Arte: Roman Papsuev.

O torneiozinho de Joffrey foi na verdade mais uma exibição de justa.

O grande torneio em Harrenhal durante o ano da falsa primavera, o torneio em que Rhaegar coroou Lyanna Stark como rainha do amor e da beleza. Esse foi um torneio muito maior do que Vaufreixo ou o torneio da Mão. Foi no formato de IVANHOÉ novamente, campeões e desafiantes, mas mais longo, com mais desafiantes… com um melee com equipes de sete, à moda antiga. (Muita coisa aconteceu lá em Harrenhal. Se um dia eu escrever o livro prequela que alguns leitores vivem pedindo, eu poderia provavelmente ambientar a coisa toda durante aqueles dez dias.)

Quanto a suas perguntas sobre a participação ou não de mercenários, escudeiros, cavaleiros livres e esses tipos, novamente, não vejo isso como uma diferença cronológica, mas mais geográfica. A Campina é o coração da tradição de cavalaria nos Sete Reinos, o lugar onde a cavalaria é mais universalmente estimada, e assim o lugar onde o mestre dos jogos é mais propenso a criar e aplicar regras rigorosas. Em Dorne e Ponta Tempestade e as terras fluviais e o Vale, as coisas talvez sejam menos rigorosas, e ao norte do Gargalo onde os velhos deuses ainda reinam e os cavaleiros são raros, eles fazem suas próprias regras à medida em que precisam.

Isso tem paralelos no mundo real também. Na Baixa Idade Média, a França era o apogeu da cavalaria. Os cavaleiros alemães, ingleses, italianos e espanhóis seguiam as modas que os chevaliers franceses lançavam, embora nem sempre fizessem direito. E se você fosse ainda mais longe, a lugares como a Escócia, a Hungria ou a Geórgia, os costumes divergiam ainda mais.

As personalidades dos lordes patrocinadores e de seus mestres-de-armas são outro fator. Robert Baratheon não era um grande respeitador de tradições antigas, e dificilmente teria querido um torneio “apenas para cavaleiros” para honrar Ned, que não era um cavaleiro. O Lorde Ashford em Vaufreixo, por outro lado, estava tentando ficar nas boas graças de Baelor Quebralanças, o cavaleiro de torneios notável de sua época.

Quanto ao julgamento por combate… sim, o Julgamento de Sete foi um caso muito especial. Originalmente era uma cerimônia religiosa ândala, e até na época de “O Cavaleiro Andante” não se havia disputado um em cem anos (ou o que quer que eu tenha dito).

Ivanhoé
Cena do combate final de Ivanhoé (1952).

Ivanhoé

Correspondência com fã, enviada por Elio M. García, Jr. 30 de abril de 1999.

Em primeiro lugar, obrigado pela resposta tão minuciosa sobre torneios e cavalaria. Fascinante. Particularmente quanto às notas sobre Ivanhoé e sua influência – eu só testemunhei a produção do A&E, embora talvez esteja passando da hora de ler. Parece que está cheio de ideias.

Vale muito a pena ler IVANHOÉ, embora o estilo seja bastante antiquado, é claro. Ainda assim tem alguns personagens e cenas fabulosos, e até onde sei é a retratação definitiva de um torneio medieval, tanto melee quanto justa.

Foi filmado três vezes, até onde sei. A produção recente do A&E teve alguns bons momentos, como ocorreu com a versão mais antiga de Sam Neill… a versão CLÁSSICA, porém, ainda é a versão da MGM da década de 50, estrelando Robert Taylor, Elizabeth Taylor, e George Sanders. As justas são maravilhosas, Liz está radiante, e George Sanders rouba o filme como Bois-Gilbert. Você definitivamente deveria alugar e dar uma olhada.

Curiosamente, na semana passada publiquei um artigo sobre a influência de Elizabeth Taylor na composição da personagem Ashara Dayne, com alguns comentários de George sobre Ivanhoé. A ótima resposta de Martin sobre os torneios e a heráldica deixam clara uma tendência dele na composição de seu mundo fictício: não havia regras postas, absolutas e imutáveis nos Sete Reinos – em relação aos mais variados temas – algo que nós, leitores, às vezes temos dificuldade de assimilar, sempre buscando respostas categóricas.

A resposta sobre a queda de Eddard e Sansa em especial também merece atenção, porque George realmente faz um comentário externo sobre a própria obra, e a conclusão de que a personagem não deve ser unicamente culpada e nem isentada de sua responsabilidade mostra também a tendência à nuance e a rejeição aos absolutos.

Na semana que vem, a sétima edição de Assim Falou Martin. A caixa de comentários desta sexta edição está aberta abaixo. Para acessar a coleção completa de AFMs, clique aqui.