George R. R. Martin Torcon
George R. R. Martin discursando na TorCon, em 2003. Foto: Michael Pederson, Nth Degree.

Todo ano, um autor que contribuiu significativamente com a ficção científica ou a fantasia é nomeado o Convidado de Honra na World Science Fiction Convention, a WorldCon. Para George R. R. Martin, um escritor desses gêneros não pode receber honraria maior. E em 2003, ele foi o Convidado de Honra na 61ª WorldCon, em Toronto, no Canadá.

A tradição é que o convidado em questão faça um discurso memorável, e George, naturalmente, seguiu o costume. No entanto, ao invés de fazer agradecimentos genéricos a seus fãs, leitores, colegas ou parentes, Martin resolveu falar sobre ele mesmo, mais especificamente sobre sua infância na cidade de Bayonne, Nova Jersey, onde cresceu.

À primeira vista, falar sobre si mesmo pode soar narcisista (especialmente para uma fala de agradecimento), mas como leitora e leitor perceberão ao longo do texto, o discurso de George é marcado por sensibilidade e humildade. Segundo o autor, ele trabalhou no texto ao longo de todo o ano anterior à convenção.

O discurso foi transcrito na edição de novembro de 2004 da Asimov’s Science Fiction, e depois publicado na antologia WorldCon Guest of Honor Speeches. Eu pessoalmente só o descobri por acaso há algumas semanas, em um post no reddit, e fiquei encantado. Tanto que resolvi traduzi-lo para o português e publicá-lo aqui, para que leitores brasileiros também possam conhecer um pouco da infância de GRRM – e descobrir sementes para várias coisas que reverberaram em toda sua obra (até a mais recente, As Crônicas de Gelo e Fogo, e sua adaptação Game of Thrones).

O texto original está protegido por direito autoral, mas nosso Arthur Maia entrou em contato com Raya Golden (minion oficial de GRRM e ilustradora de Starport), e conseguiu autorização do próprio autor para que o Gelo & Fogo pudesse publicá-lo. Além da própria tradução, a seleção das figuras e os links explicativos ficaram por minha conta (e em contato com Golden, também fui autorizado a usar as fotos de George). Espero que fotos e links ajudem leitor e leitora a se situarem. Sem mais delongas, portanto, o discurso.

O Coração de um Menininho, por George R. R. Martin

Há trinta anos, Toronto sediou sua segunda WorldCon, que curiosamente também foi minha segunda WorldCon.

Eu morava em Chicago na época, lutando contra a pobreza como voluntário da VISTA, enquanto organizava torneios de xadrez nos finais de semana e escrevia histórias à noite, para complementar os cinquenta dólares por semana que recebia da VISTA. Mesmo com três empregos, voar não cabia no meu orçamento. Felizmente, Alex e Phyllis Eisenstein me ofereceram uma carona. A convenção ainda assim apertou minhas finanças, embora como escritor profissional eu pudesse deduzir tudo: quarto de hotel, refeições, viagem. De acordo com minha restituição do imposto de renda de 1973, deu US$ 130,03.

O grande e saudoso Robert Bloch foi o Convidado de Honra daquela TorCon, como fora na primeira Toronto WorldCon, lá em 1948. Bloch fez seu discurso no banquete do Hugo. Apresentações dos Hugos em estilo teatral não ocorreram até a Big Mac, a revolucionária WorldCon de Kansas City, em 1976. Antes dela, sempre havia um banquete, e os Convidados de Honra – só havia dois naquela época, Pro e Fã – faziam suas falas antes que os foguetes fossem entregues. Os discursos e os prêmios se combinavam para dar a cada convenção um centro que as WorldCons modernas não têm mais.

GRRM na Torcon
GRRM na Torcon 3. Foto: Michael Pederson, Nth Degree.

Por outro lado, Bob Bloch e os convidados de honra anteriores a ele também tinham que competir com pratos tinindo e estômagos roncando, e públicos impacientes para descobrir quem vencera os Hugos. Eu mesmo já fiz discursos suficientes para saber que quando você entra depois de sobremesas como os baked Alaskas e antes dos troféus de boliche, é melhor ficar com o curto e o engraçado. Que foi o que Bloch fez, se bem me lembro.

Não é o que farei, porém. Mesmo com trinta anos de distância entre nós, o autor de Psicose é uma atração muito difícil de suceder. Ele foi abençoado com uma sagacidade mordaz, uma entrega impassível e um senso perfeito de timing cômico. Era uma espécie de cruzamento entre Bob Hope, Alfred Hitchcock e Connie Willis, embora andasse com uma piteira em vez de um vestido com gola de Peter Pan. Além disso, se você tenta fazer um discurso engraçado e ninguém ri… bom, tem algumas coisas na vida que são mais dolorosas, como um canal de raiz, encontros de negócios da SFWA, ouvir William Shatner cantar “Rocket Man”, mas mesmo assim…

Também não farei o discurso “fãs são fodas”. Adoro fãs, vejam bem. Sou um fã. Somos um bando ótimo de rapazes e moças, sem dúvida, mas não somos superiores à média geral da humanidade, nem somos a última boa esperança da Terra. “São vocês que nos levarão às estrelas”, já ouvi oradores dizerem a públicos de convenções. Ouve-se o mesmo discurso em banquetes do Nebula, só que lá é o discurso Eliot Rosewater. “Vocês são especiais”, diz o orador, “vocês são únicos! Não tem ninguém tão bom quanto vocês, ninguém mais realmente sabe o que está acontecendo, ninguém mais tem a percepção e a perspicácia incríveis de vocês!” Vivas, vivas, vivas para nós! É um discurso apropriado para todas as ocasiões, e tenho certeza que vendedores de Buick, taxidermistas e os Woodmen of the World também adoram ouvi-lo em suas convenções. Mas não o farei hoje.

Nem vou falar sobre a situação da nossa área de escrita. A verdade é que não sei muito sobre a situação da área. Ninguém sabe, exceto talvez o Charlie Brown, e ele não vai dizer. A área simplesmente cresceu demais. Gardner Dozois e David G. Hartwell podem falar com certa autoridade sobre a situação da ficção curta, mas nem mesmo eles conseguem ler todos os romances que são publicados, e os romances já são o coração da ficção científica e da fantasia há muitos anos. Se você quer saber sobre a situação da área, vá a alguns painéis, e vai ouvir um bom número de pessoas brilhantes, falando sobre algum aspecto da pequena parte da área em que elas estão envolvidas atualmente. Se você ouvir o suficiente, uma ideia geral pode surgir. No que concerne à situação da área, somos todos cegos tentando descrever o elefante.

Ao invés disso, decidi falar sobre o único assunto no qual sou inquestionavelmente a autoridade principal do mundo: eu.

Afinal de contas, não tem comida de bufê ou baked Alaskas aqui, e não vou entregar nenhum foguete esta tarde… nem receber um, o que é mais triste. Claro, talvez alguns de vocês tenham entrado aqui por engano, tentando achar a sala de jogos ou o painel da Buffy, a Caça-Vampiros, mas devo presumir que a maioria de vocês está aqui porque leu minha obra.

Não quero falar da minha obra, porém. Não como tal. Aqueles de vocês que visitaram a sala de vendas sabem que saiu uma nova e enorme coleção retrospectiva minha pela Subterranean Press. GRRM é o nome, meio milhão de palavras da minha obra. Ficção científica, fantasia, terror, com comentários extensos nos quais discuto como e quando cheguei a cada gênero, minhas influências literárias de F. Scott Fitzgerald e J. R. R. Tolkien até Stan Lee e Gardner Fox, como cheguei a escrever essa história, o que me inspirou a criar aquela, de onde veio aquela outra. Todas as histórias por trás das histórias estão ali, se esse tipo de coisa interessa a vocês. Não vou reciclar isso aqui.

Ao invés disso, gostaria de falar sobre o lugar de onde todas as minhas histórias vêm. Tudo que já escrevi, de Garizan, o Guerreiro Mecânico, até As Crônicas de Gelo e Fogo.

Gostaria de falar sobre Bayonne, Nova Jersey.

Para aqueles de vocês que nunca estiveram lá, que presumo ser a maioria, Bayonne é uma península, tão perto da Cidade de Nova York que é quase parte dela. O Brooklyn está ao leste, do outro lado da Baía de Nova York, Manhattan fica a nordeste, e ao sul, do outro lado do Kill Van Kull, está Staten Island, um dos cinco distritos da cidade.

Nos tempos coloniais, tanto Nova York quanto Nova Jersey reivindicavam Staten Island, que é muito mais perto de Bayonne do que de Manhattan. A questão foi finalmente resolvida com uma corrida de barcos ao redor da ilha. Nova York ganhou, e Nova Jersey continua puta com isso até hoje. Como a Itália, Bayonne tem a forma de uma bota, embora a bota de Bayonne pareça ter sido feita para alguém com pé torto. A cidade tem uns cinco quilômetros de comprimento e um quilômetro e meio em seu ponto mais largo, na parte baixa do pé.

Nasci no Hospital Bayonne em 20 de setembro de 1948. Meus pais tinham nascido e crescido em Bayonne, assim como três dos meus quatro avós. Apesar da proximidade com Nova York, Bayonne de forma alguma era uma cidade-dormitório, naquela época ou mesmo agora. Era uma cidade em si mesma… um mundo em si mesmo, na verdade. Podia-se comprar praticamente qualquer coisa de que precisasse nas lojas da Broadway, e havia empregos em abundância no Cabo, e mais na base da Marinha. Bayonne era um lugar em que gerações de pessoas nasciam, cresciam, iam à escola, encontravam trabalho, se casavam, tinham filhos, compravam casa própria ou se mudavam para o andar de cima dos pais, envelheciam, e morriam, tudo dentro dos cinco quilômetros quadrados da cidade.

Uma cidade industrial densamente habitada de aproximadamente setenta mil pessoas, Bayonne fora o maior centro de refino de petróleo do país durante a Segunda Guerra Mundial. Muitos dos lendários encouraçados e destróieres da Segunda Guerra Mundial foram preparados na base da Marinha e na doca seca de Bayonne, antes de zarparem para lutar contra Tojo e Hitler. Era uma cidade de classe trabalhadora, densa, urbana, étnica.

Hotel Latourette em Bayonne
O antigo Hotel Latourette, em foto de 1893. Domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.

Um século antes, a cidade fora um lugar bem diferente. No início do século XIX, Bayonne fora uma comunidade de pequenos fazendeiros e pescadores, renomada por suas ostras. Cercada por baías, se tornou um centro de iatismo e construção de barcos depois da Guerra Civil, e um retiro de férias para a pequena aristocracia rica. Os nova-iorquinos pegavam balsas a vapor para cruzar a baía, ou velejavam em iates até o Kill Van Kull para se hospedar no Hotel LaTourette, um enorme hotel resort vitoriano. Cercado por antigos carvalhos e gramados ondulados, o LaTourette oferecia refeições finas, pesca, vela, croquete e vistas esplêndidas das matas selvagens de Staten Island do outro lado da água.

Isso tudo foi muito antes da minha época, é claro… embora minha mãe se lembrasse do LaTourette. Ela nasceu em 1918, e cresceu em uma casa na Lord Avenue, entre a 3rd Street e a 4th Street. A época de Bayonne como um resort da moda já havia passado há muito quando ela era menina, mas o LaTourette ainda existia à beira d’água, no pé da Lord Avenue, tapado e decadente. Para minha mãe e seus irmãos e irmãs, era “a casa assombrada”. Eles desafiavam uns a outros a bater nas portas tapadas, e os meninos jogavam pedras nas janelas da velha enormidade vitoriana. Muita mata o cercava, contava minha mãe; havia poucas casas abaixo da 3rd Street quando ela era menina.

A Bayonne de minha própria infância havia mudado muito. Não havia matas e nem casas assombradas, embora tivéssemos muitas pizzarias. A melhor pizza do mundo é de Bayonne. Nos anos 1950, a cidade já era predominantemente de operários, e esmagadoramente católica. Tínhamos católicos irlandeses, católicos italianos e católicos poloneses. Cada nacionalidade tinha a própria igreja, a própria escola e os próprios desfiles, em seus próprios dias de festa para os próprios santos. Eu tinha um pé em dois desses grupos, já que meu pai era metade italiano e minha mãe era metade irlandesa.

Embora nenhum de meus pais fosse religioso, eles nos mandavam para a Missa todo domingo, ainda que eles mesmos nunca fossem. Íamos à St. Andrew, a igreja católica irlandesa na 4th Street.

É claro que íamos. Minha mãe era uma Brady.

Margaret era a mais nova de onze filhos. O pai dela, Thomas Brady, era filho de James Brady, que emigrara para os Estados Unidos em 1854 de Oldcastle, Condado de Meath, Irlanda, seguindo os passos dos irmãos e primos. Muitos daqueles Bradys tinham ido parar em Bayonne, onde se casaram com outras irlandesas, tiveram filhos, começaram negócios e se saíram  muito bem. Um deles era dono da maior empresa de carvão e gelo de Bayonne. Outro construiu o primeiro prédio de tijolos da cidade, Brady’s Hall (“Salão do Brady”), uma taberna e salão de dança para trabalhadores irlandeses. Encontros políticos aconteciam no Brady’s Hall também. Bradys serviram como comissário de saúde do condado, xerife e prefeito de Bayonne, e eram membros proeminentes da Paróquia de St. Andrew.

James Brady, meu bisavô, também prosperou. Depois de alguns anos como trabalhador braçal, ele fundou uma empresa de materiais de construção em 1872, comercializando cascalho, concreto, gesso e madeira. Construiu-se muito em Bayonne entre a Guerra Civil e a Grande Depressão, então a empresa se saiu muito bem, apesar do fato de que James ficara cego em um acidente de construção.

Transportar materiais de construção por carroções a cavalo pelas estradas do fim do século XIX e começo do XX era devagar, e às vezes difícil. Como Bayonne era uma península, muitas vezes era mais fácil e mais barato enviar a madeira e o concreto pela água, e assim James comprou terras no Kill Van Kull, perto do extinto Hotel LaTourette, e construiu um cais particular para a empresa. James tinha seus escritórios no cais e, segundo a lenda da família, ouvia as barcaças sendo descarregadas em seus carroções, e sabia imediatamente se tinha recebido toda a tonelagem pela qual pagara, só pelos sons.

Seus filhos o seguiram no negócio, que ficou conhecido por James Brady’s Sons (“Filhos de James Brady”). A família ficou rica. Não rica como os Rockefeller, vejam bem, mas rica para Bayonne. Quando James morreu em 1907, meu avô Thomas e os irmãos assumiram a James Brady’s Sons, e a empresa continuou a prosperar. Entre a virada do século e a Grande Guerra, eles estavam entre as famílias mais proeminentes e bem-sucedidas de Bayonne. A Igreja de St. Andrew é cheia de estatuários e altares esculpidos em mármore, doados por vários Bradys, com plaquinhas para homenagear os doadores. Thomas se casou em outra família proeminente de Bayonne, os Wall, cuja ascendência era inglesa e francesa (e cujo nome também significa “parede”, na língua inglesa). Minha avó Catherine tinha três irmãs, todas próximas a ela em idade; as quatro meninas Wall eram tão inseparáveis em eventos sociais, contava minha mãe, que todo mundo se referia a elas como “the Room” (“o Quarto”). Mas Thomas Brady tirou uma das Walls do Quarto, se casou com ela, e construiu para ela aquela casa na Lord Avenue, perto do Cais Brady. Juntos, tiveram esses onze filhos… a última dos quais foi minha mãe, Margaret, de quem ouvi esses contos. Quando eu era velho o bastante para ouvir tudo isso, os contos eram tudo que restava. A James Brady’s Sons foi esmagada durante a Grande Depressão. A súbita e inesperada morte de meu avô Thomas Brady, em 1931, foi o golpe fatal em uma empresa já vacilante. Seus irmãos tentaram continuar, mas não eram o tipo de homem de negócios que Thomas fora. De acordo com a lenda da família, o Prefeito Hague, o Chefe Tweed de Jersey City, também desempenhou um papel sinistro na queda dos Bradys.

Minha mãe sempre descreveu Hague como um figurão corrupto e opulento, notório por rapinar viúvas e órfãos. De alguma forma, com a conivência de um dos irmãos sobreviventes de minha mãe, a ovelha negra da família, Hague supostamente deu um jeito de pilhar a James Brady’s Sons de todo o dinheiro e ativos, deixando minha avó Catherine sem nenhum tostão. Quando ela tentou processar, todos os advogados que contratava de repente viravam juízes e abandonavam o caso. A empresa foi dissolvida e vendida, o cais foi tomado pela cidade. Até a casa na Lord Avenue teve que ser vendida.

A essa altura, só minha mãe, a mais nova dos onze filhos de Thomas Brady, ainda morava em casa. Alguns de seus irmãos tinham morrido na infância; os outros tinham crescido, se mudado, e constituído famílias próprias. Minha mãe era na verdade mais nova que várias de suas sobrinhas e sobrinhos. Quando a riqueza e a casa se foram, ela e a mãe se mudaram para um apartamento modesto. Assim que saiu do ensino médio, ela começou a trabalhar na Westinghouse, e sustentou minha avó até que Catherine faleceu em 1941. Uns seis anos depois disso, Margaret conheceu meu pai.

O nome dele era Raymond Collins Martin… esse “Raymond” é a origem do primeiro dos meus dois Rs. Minha mãe o chamava de Ray, e todos os outros o chamavam de Smokey.

Old Gold
Anúncio dos cigarros Old Gold, 1954. Fonte: Vintage Adventures.

Meus pais fumavam, como todo mundo em Bayonne nos anos cinquenta. Às vezes, um deles me dava um dinheiro para comprar um maço em uma máquina de cigarros. Minha mãe fumava Chesterfields sem filtro, meu pai Lucky Strike… mas sempre que eles me mandavam à máquina de cigarros, eu voltava com Old Golds e dizia que a máquina estava sem a marca deles. Alguma coisa no nome “Old Gold” (“Ouro Antigo”) me fazia pensar em piratas e tesouros submersos.

Sempre que eu fumava meus cigarros de chocolate, eu fingia que eles eram Old Golds também.

Talvez o Smokey também tivesse começado com cigarros de chocolate. Não sei. Não sei quase nada sobre a infância de meu pai.

Bom, uma coisa… ele jogava bolinha de gude. Havia uma lata de biscoitos de animais redonda, antiga, no estilo dos anos trinta, cheia das bolinhas de gude antigas dele, e dentro dela havia um jornal amarelado, sobre Raymond C. Martin vencer o campeonato de bolinhas de gude do condado. Ele nunca se ofereceu para me ensinar o jogo, porém, nem sequer abriu aquela velha lata.

Meu pai adorava esportes – futebol americano, beisebol e boxe, especialmente – mas ele assistia, não jogava. Nunca jogamos uma partida de pegar bola, nunca jogamos uma bola de futebol americano pelo jardim. Ele tentou me ensinar a andar de bicicleta. Eu era um demônio num triciclo, e adorava zunir em minha duas-rodas com as rodinhas de treino, mas quando elas eram tiradas, eu tendia a perder o equilíbrio, bater e cair.

Arranjei tantas cascas de ferida e roxos que implorei para colocar as rodinhas de treino de volta, mas meu pai não queria saber. Se eu não conseguisse andar sem as rodinhas, não andaria de jeito nenhum, decretou. Tentamos por mais ou menos uma semana, mas eu continuava batendo e caindo. Logo Smokey perdeu a paciência e desistiu, desgostoso, mas ainda se recusou a me dar aquelas rodinhas de volta. Nunca mais andei de bicicleta.

Meu pai era veterano da Segunda Guerra Mundial… e, de acordo com um homem, pelo menos, um herói de guerra. Ele guardava uma caixa de sapatos cheia de fotografias antigas de seu serviço, pequenas instantâneas granuladas em preto e branco, tiradas com alguma Brownie antiga. As fotos parecem ter sido tiradas no Norte da África. Há areia, barracas, soldados sem camisa… e meu pai, sorrindo para a câmera, parecendo impossivelmente jovem. Em uma das fotos há um camelo no fundo. Na maioria das outras, Smokey está com um Camel pendurado nos lábios… ele só mudaria para os Luckies depois da guerra. Alguns de seus companheiros estão nas fotos, fazendo palhaçadas com os rifles, posando com os braços sobre seus ombros. Não sei os nomes deles. Nunca saberei.

Na caixa de sapatos havia um retrato de uma jovem de cabelos e olhos escuros. Italiana, pela aparência, eu diria… mas quem ela era e o que ela significava para ele… bom, essa é outra coisa que nunca saberei. Minha mãe também não sabia, embora tenho certeza de que ela se perguntasse.

Embora ele não tivesse nenhum treinamento médico, o exército fez de Smokey um médico quando o enviou para o exterior. Ele serviu no Norte da África, na Sicília e na Itália, e viu certa quantidade de combate. Ele nunca falava sobre a guerra, mas sei que uma vez arriscou a própria vida para salvar alguns homens gravemente feridos. O capitão dele chamou o ato de “galhardia ilustre”, e o indicou para Medalha de Honra do Congresso. Minha irmã Darleen ainda tem a carta que ele escreveu. O capitão foi morto pouco depois de escrever a carta, porém. Smokey voltou da guerra só com um Coração Púrpura… isso, um maço gordo de dinheiro, e uma safira gigante.

Meu pai era apostador, também. Talvez tivesse sido no exército que ele trocara as bolinhas de gude por um par de dados… mas a julgar pelo quão bem se saiu, acho que ele já devia saber algumas coisas quando entrou. Ele era bom no pôquer, melhor no vinte-e-um. Apostava nos números toda semana, e ganhava de vez em quando, mas nunca prêmios grandes. Uma ou duas vezes por ano ele ia às pistas de corrida. Todo outono ele gostava de apostar no futebol americano universitário. Ele era bem bom em escolher os jogos, até eu ir para a faculdade… aí algum senso errôneo de lealdade o fez apostar na minha escola. Teria sido ótimo se eu estivesse na Notre Dame, mas, infelizmente, escolhi a Northwestern.

Ele até apostava em mim. Aprendi a jogar xadrez na sétima série, e no ensino médio eu já era bem bom. Certa noite, eu estava em casa, lendo a edição pirata em paperback da Ace de As Duas Torres, que acabara de sair. Eu estava esperando meio ano desde Sociedade, e eu era Sam e Frodo, no caminho para Cirith Ungol, quando o telefone tocou. Meu pai queria que eu fosse ao Bilmar jogar uma partida de xadrez. Tentei dizer a ele que estava lendo um livro, mas não havia discussão com meu pai. Então fui andando até o Bilmar, onde encontrei Smokey na sala dos fundos com um cara baixinho e careca, sem pernas. Jogamos uma partida de xadrez e eu ganhei, e depois disso achei que iria para casa, para As Duas Torres, mas não, o cara sem pernas insistiu em outra partida. Ganhei dessa vez também, e bem facilmente. Ele jogava melhor que meu pai, que sabia como as peças se moviam e não muito mais que isso, mas não era realmente bom. Ele achava que era, porém, e exigiu uma terceira partida. Então jogamos de novo. Meu pai me comprou umas Cocas, e eu esmaguei o homenzinho sem pernas, de novo, de novo e de novo, até que finalmente me cansei.

Quando estava indo embora, Smokey enfiou uma nota de vinte na minha mão. Minha semanada na época era de um dólar, cuja maior parte eu gastava em quadrinhos e livros duplos da Ace, então aquilo foi a sorte grande. Só mais tarde descobri que eu estava jogando por cinquenta dólares por partida. Meu pai gostava de dizer que tinha me ensinado a jogar xadrez, mas não era verdade. Ele tentou uma vez, mas perdeu a paciência tão rápido quanto quando tentou me fazer andar de bicicleta. Não, foi meu primo Richie que me ensinou xadrez. Aprendi pôquer sozinho na faculdade, junto com copas e bridge. Smokey nunca me ensinou sequer os dados… e o jogo de dados era o jogo dele, o que ele tinha jogado durante a guerra, em meio aos camelos e à carnificina.

Ele jogava bem o bastante para ganhar aquela safira gigante e os dez mil dólares que trouxera da Europa. Dez contos eram uma pequena fortuna em 1946. Meu pai poderia ter comprado uma casa legal com esse dinheiro. Poderia ter comprado um carro ótimo. Poderia ter comprado cinco carros. Poderia ter comprado uma casa e um carro. Poderia ter entrado em algum tipo de negócio. Poderia ter investido no mercado de ações, e nesse caso os dez mil dólares dele teriam virado alguns milhões a esta altura. Ao invés disso… bem… ele aproveitou. Mulheres, cerveja, boates, a pista de corrida. Ele se divertiu. Dez mil contos foram longe, aí.

Smokey nunca teve carro. Nunca dirigiu. Ele sempre dizia que beber e dirigir não combinavam… e já que com certeza não ia parar de beber, ele pegava táxis. Quando minha mãe levava as crianças a algum lugar, todos pegávamos o ônibus. Se meu pai estava conosco, porém, todo mundo se espremia em um táxi. Ele pegava táxis para todo lado. Minha história favorita sobre ele é desse período pós-guerra, quando ele estava cheio da grana. Ele ia levar uma namoradinha a uma boate em Nova York, e queria impressioná-la. Então ligou para dois táxis. Disse ao primeiro taxista o endereço e o mandou vazio. Aí, entrou no segundo táxi com a namoradinha e disse: “Siga aquele carro.”

Eu mesmo nunca vi esse lado dele. Ouvi essa história de minha mãe, que a ouvira dos amigos dele. Ela não era a mulher no segundo táxi, sinto em dizer.

Margaret e Smokey Martin
Margaret e Smokey, os pais de George. Fonte: GRRM, site oficial.

Na época em que Margaret Brady conheceu e se casou com Smokey Martin, ele tinha torrado todos os dez mil dólares. Tudo o que ainda tinha de sua época de Exército era aquela safira gigante, que acabou no dedo de minha mãe.

Por mais que minha mãe adorasse aquela safira, suspeito que ela teria adorado uma casa ainda mais. Havia uma grande falta de moradia nos anos imediatamente seguintes à Segunda Guerra Mundial. Muitos soldados que voltavam não encontravam um lugar para morar. Em dado momento, um cara chamado Levitt construiria Levittown, inventando assim os subúrbios e resolvendo o problema, mas Bayonne não tinha lugar para colocar um subúrbio, a não ser que se contasse o fundo da Baía de Newark. Assim, quando meus pais se casaram, eles não tiveram escolha a não ser se mudar para a casa da mãe e da avó de Ray, a casa grande na esquina da 31st Street com a Broadway, onde ele crescera.

Foi ali que eu também comecei a crescer. A dona da casa era minha bisavó, a Vovó Jones, uma velha e severa matriarca de descendência alemã. Moramos lá até meus quatro anos, e voltávamos para visitar todo domingo por anos, depois que nos mudamos. A maioria das minhas memórias reais da casa são dessas visitas. A essa altura, a Vovó Jones estava de cama, mas isso não fazia dela nem um pouco menos temível.

Todo domingo, assim que chegávamos, minha irmã e eu éramos mandados marchando escada acima até o quarto da Vovó Jones, para contar a ela o que tínhamos aprendido na escola naquela semana, e ai de nós se tivéssemos esquecido alguma lição. Nenhum professor que tive na escola causava a metade do medo que Vovó Jones me dava deitada naquela grande cama de dossel.

A casa dela era enorme… ou pelo menos parecia enorme para a criança que eu era. As coisas são maiores quando se é pequeno. Três andares, mais um sótão e um porão. Tinha uma fornalha a carvão, então parte do porão era dedicada ao depósito de carvão. O caminhão de carvão passava mais ou menos uma vez por mês, descia uma calha pela janela do porão, e nos abastecia. O carvão ribombava enquanto descia pela calha; podia-se ouvir por toda a casa. Havia uma sala de jantar formal, e uma cozinha enorme com um forno preto de ferro fundido. É possível que ele fosse a carvão também, não me lembro. Um alpendre nos fundos também, e um grande quintal cercado, onde eu brincava. No quintal havia outra construção que chamávamos de “o barracão”, mas quando o vejo no fundo de fotos antigas de família, parece mais um estábulo, para mim. Nunca houve cavalos, porém… isto é, a não ser que se conte o cavalo de vassoura que eu montava quando brincava de caubói.

Lotsa Guns GRRM
GRRM como o perigoso caubói “Lotsa Guns”. Fonte: GRRM, site oficial.

Foi no quintal que criei meu primeiro personagem. Acho que eu tinha uns três anos. A maioria dos caubóis tinham um revólver seis-tiros, mas alguns tinham dois, e era mais legal. De alguma forma, descobri que ter três seria ainda melhor que dois, quatro seria melhor que três, e assim por diante. Em vez de brincar de ser Roy Rogers, ou Hopalong Cassidy ou Red Ryder, eu disse à minha mãe que era aquele famoso malfeitor, Lotsa Guns (algo como “Monty Diarmas”), que tinha armas nas botas e no chapéu de caubói e enfiadas no cinto e em todo lugar. Admito que a maioria de meus armamentos parecia suspeitamente com gravetos… mas ei, eu não estaria aqui hoje sem uma imaginação vívida.

Sempre me perguntam quando comecei a escrever. Escrevo desde que consegui escrever, desde que aprendi a formar letras e palavras… mas antes disso, eu inventava histórias e as contava para as pessoas, como Lotsa Guns pode testemunhar.

Às vezes acho que a escrita é uma forma de loucura. No mínimo, elas são primas próximas. Sonhamos com terras e épocas que nunca existiram e gastamos metade das horas em que estamos acordados relatando conversas que nunca aconteceram entre pessoas que não existem. Tem que ser um pouco doido para achar que um graveto é uma arma. Fico pensando se a imaginação não nasce da necessidade, também. Eu tinha que inventar histórias e aventuras. Se eu não tivesse feito isso, teria sido muito solitário no quintal, só eu e meus gravetos. Eu não tinha amigos ou colegas de brincadeira. Eu tinha uma mãe, uma avó, e uma bisavó, e uma tia-avó, e todas liam histórias para mim desde muito novo. Algumas, pelo menos, eram histórias de Beatrix Potter, pelo que me lembro, sobre Pedro Coelho e seus parentes menos celebrados, Flopsy, Mopsy e Rabo-de-Algodão. Havia uma história especialmente aterrorizante, sobre uma doninha tentando comer os coelhos. Não sei dizer se foi Beatrix Potter ou algum outro autor de coelhos que escreveu essa, mas é dela que me lembro mais vividamente. A doninha me aterrorizava, mas era minha história favorita mesmo assim.

Além das histórias, eu também tinha um gato, um velho macho irlandês de uma orelha chamado Patsy, que aterrorizava o cachorro da vizinhança… e também teria dado cabo daquela doninha nojenta, eu não tinha dúvida. Quando tinha dois anos, ganhei uma irmãzinha, Darleen, mas ela não era muito divertida no começo, e depois a coisa principal que ela fazia era comer os pneus de borracha de todos os meus caminhões de brinquedo.

Eu não conhecia outras crianças da minha idade. A Broadway era a via principal de Bayonne, e, nos anos 1950, havia se tornado quase completamente comercial, da 5th Street à fronteira com Jersey City.

Não havia crianças da vizinhança com quem brincar pelo simples motivo de que não havia vizinhança. Nossa “vizinha” mais próxima era a Lavanderia Sunshine, na porta ao lado. A lavanderia era um prédio moderno com telhado plano, janelas de vidro laminado e as primeiras portas automáticas de Bayonne. Eu nunca me cansava de tentar enganar o olho elétrico, mas de alguma forma ele sempre me via.

Apesar de sermos uma ilha residencial em meio a um mar de lojas, vitrines e tabernas, a Vovó Jones se recusava a vendê-la. Ela era uma mulher teimosa, acostumada a fazer as coisas de seu próprio jeito, e ninguém a faria se mudar. Fora uma Gasman até se casar com George Jones, um capitão da polícia de Bayonne. Uma fotografia emoldurada do capitão, com aparência austera em um uniforme da polícia, repousava na cômoda da Vovó Jones, mas isso é tudo o que eu jamais soube dele. Ele foi o George que meu nome homenageou. O filho deles também se chamava George… mas na casa da Broadway, o pai falecido era sempre chamado de Capitão Jones, e o filho vivo chamado de Georgie Jones. Também havia uma filha, minha Vovó Grace, que se casou com um imigrante italiano chamado Louis Martin e teve primeiro minha Tia Gladys e depois meu pai. Quando eu apareci, Gladys havia se casado, se mudado, e constituído família própria, mas meu pai, sua mãe Grace, seu tio Georgie, a mãe deles, Vovó Jones, e a irmã mais nova da Vovó Jones, Tia Barbry, ainda estavam todos na casa da Broadway.

Meu avô não estava, porém. Embora Louis Martin não tenha falecido até que eu estivesse na faculdade, ele era tido como morto, no que dizia respeito à nossa família. A única memória que tenho do Vovô Louis é ele me jogando para o ar e me pegando na sala de jantar da casa da Broadway, durante uma de suas visitas infrequentes. Ele estava rindo e eu estava aterrorizado, pelo que me lembro. Louis nascera na Itália, mas viera para a América com o pai quando era muito novo, provavelmente da mesma idade que eu tinha quando ele me jogou para o ar. O nome da família era Massacola quando deixaram o Velho País, mas aqui mudou para Martin.

De acordo com todos os relatos, Louis era um homem vivo, bonito e charmoso, mas no folclore de nossa família ele era um canalha. Depois de ter dois filhos com minha avó Grace, ele a abandonou e fugiu com uma mulher mais nova. Não fugiu para muito longe, porém. O povo de Bayonne raramente deixa Bayonne, então Louis e sua nova senhora só se mudaram para uns vinte quarteirões acima e uns três para o lado. Supostamente, eles viviam em algum lugar do Boulevard, para cima da 50th Street. Minha avó Grace era uma boa católica, então nunca concedeu o divórcio a Louis, mas isso não o impediu de ter vários filhos com a outra mulher. Não havia nenhum contato entre as duas famílias Martin, ou entre meu pai e meu avô. Na verdade, Smokey ficava bravo a qualquer menção do nome de seu pai.

Já que nunca tive a chance de perguntar o lado dele da história, realmente não sei por que Louis deixou Grace e abandonou os filhos, mas suspeito que ele estava fugindo da sogra, tanto quanto da esposa. Minha avó Grace era uma mulher doce, gentil e amável, mas a Vovó Jones era feita de algo mais rígido. A viúva do capitão geria aquela casa na Broadway com mão de ferro, tanto nas coisas grandes quanto nas pequenas. Peguemos o Natal, por exemplo. Minhas irmãs e eu nunca abríamos nossos presentes na manhã de Natal. Em vez disso, éramos acordados à meia-noite na Véspera de Natal, para ganhar leite, biscoitos de açúcar e presentes. Era um costume alemão que os Gasmans tinham trazido do velho país, e mesmo assim a Vovó Jones com sucesso o impusera aos filhos, aos netos e aos bisnetos, se sobrepondo a protestos de três gerações de cônjuges não-alemães.

Em outras situações, a gestão dela era menos benigna. O filho dela, Georgie Jones, tinha problemas na escola quando menino. Hoje em dia, poderíamos dizer que ele tinha um transtorno de aprendizagem; na época, dizia-se que ele era “nervoso”. Vovó Jones o tirou da escola e o deixou em casa. Quando professores e supervisores apareceram, ela os mandou embora. Assim, Georgie nunca recebeu educação formal, o que o condenou a uma vida de dependência e empregos subalternos.

E havia também a questão da Tia Barbry, a irmã solteirona da Vovó Jones. Tia Barbry era uma mulher com passado. Em algum momento de sua juventude, ela havia se declarado independente e fugido com um homem. Um homem inadequado, ao que parece, já que ela logo retornou. Família é família, então Vovó Jones acolheu a irmã. Mas Barbry era uma mulher maculada, então pelo resto da vida não lhe era permitido comer com a família. Ela ajudava a preparar as refeições, mas enquanto o resto de nós comia na sala de jantar, ela comia sozinha na mesa da cozinha. Pelo que consigo calcular, foi assim por cinquenta anos.

Assim era a casa em que meu pai crescera, a casa de que seu próprio pai fugira. Smokey fugiu dela também, à sua maneira. Ele passava os dias trabalhando como empregado civil na base da Marinha. Depois do trabalho, ia para casa, jantava, e aí ia ao Whitey e o Lefty’s do outro lado da rua, e bebia até a hora de ir dormir.

Naquela época, a legislação de Nova Jersey não permitia que mulheres fossem servidas em bares. Supostamente, isso era para proteger a honra do sexo frágil. Uma mulher ainda assim conseguia uma bebida, é claro. Ela podia comprar uma garrafa em uma loja de bebidas e levar para casa, ou podia ir a um restaurante e pedir um drinque ou uma taça de vinho com a refeição. Ela não podia, porém, entrar numa taberna e sentar num banquinho. A maioria dos estabelecimentos driblava a lei incluindo uma sala dos fundos, em que comidas eram servidas… com bebidas. Na prática, isso significava que se tinha um bar escuro e enfumaçado, cheio de homens discutindo e bebendo e falando de esportes, e uma sala dos fundos igualmente enfumaçada, mas consideravelmente mais bem iluminada, onde todas as esposas e namoradas se sentavam, algumas delas com filhos, cuidando de suas cervejas e de seus drinques e comendo.

A comida em questão às vezes era hambúrgueres ou cachorros quentes, às vezes mariscos ou mexilhões, às vezes sanduíches frios… mas mais frequentemente era pizza. Eram chamadas de “tortas de bar”, pequenas, com bordas fininhas, levemente tostadas no fundo pelo forno, sem cobertura, a não ser molho, muçarela e um pouco de azeite. As melhores pizzas do mundo, na verdade; ainda sonho com elas.

Não havia tortas de bar no Whitey e no Lefty’s, porém. Não havia esposas ou namoradas, tampouco. Não havia sala dos fundos, só um longo e estreito bar com serragem no chão, onde nem esposa, nem mãe e nem avó podiam se intrometer. Se for descontado o tempo que ele passava dormindo, meu pai passava mais tempo lá do que em casa. Enquanto isso, minha mãe ficava em casa dia e noite, com a sogra, a mãe da sogra, a tia da sogra e Georgie Jones. É alguma surpresa que ela sonhasse em ter um lugar próprio?

Ela finalmente conseguiu em 1953. Foi quando deixamos a casa na Broadway, de mudança para os recém-construídos conjuntos habitacionais de baixa-renda lá em baixo na 1st Street, perto do Kill Van Kull.

Vocês todos sabem como são os conjuntos, tenho certeza. Já leram as matérias sobre os Cabrini-Green de Chicago, viram o que acontece nas torres de Baltimore em The Wire, da HBO. Arranha-céus sombrios e gigantescos, feitos de tijolos e vidro e aço, cercados de asfalto e concreto, infestados de ratos e viciados e gangsteres, as paredes marcadas por pichações, os corredores escuros e fedendo a urina, os elevadores quebrados. Com frequência, os conjuntos foram condenados a serem “depósitos dos pobres”. A vida não vale muito nos conjuntos, e cada dia é uma batalha para sobreviver. E eu vivi lá por quatorze anos.

GRRM Projects
Os conjuntos habitacionais onde George viveu na infância. Aqui, uma vista atual deles. Foto: GRRM, site oficial.

É claro, os meus conjuntos não eram nada disso.

Eles eram novinhos, para começar, tão novos que a autoridade residencial ainda estava plantando as árvores e fazendo paisagismo quando nos mudamos. Ninguém nunca tinha morado em nosso apartamento antes, a pintura estava toda nova, o forno e a geladeira eram novinhos e nenhum deles era a carvão. Os prédios nem eram arranha-céus. Tinham três andares cada um, seis apartamentos por andar, dezoito em cada prédio. Os prédios foram construídos em blocos de três, cada um com o próprio parquinho, com escorregador e tambores e um tanque de areia. Havia três blocos no total, e entre eles um grande pátio aberto, com aros de basquete, chuveiro e piscininha infantil para o verão, e um varal em que todas as mães penduravam as roupas lavadas para secar. O total preenchia um quarteirão quadrado, entre a 1st Street e a 2nd Street, e a Lord e a Lexington.

Na verdade, eram apartamentos bem legais… tão legais, na verdade, que as pessoas faziam tumulto para entrar. Os conjuntos foram idealizados para pobres trabalhadores, o que significava, por um lado, que não havia famílias que viviam de assistência social, e por outro, que não havia ninguém que ganhasse muito dinheiro, mas ainda assim havia uma fila de espera antes mesmo de as obras começarem. Quando os apartamentos ficaram prontos para os inquilinos, a fila era de anos. Nós estávamos entre os sortudos que conseguiram um apartamento, embora eu não tenha certeza do quanto foi realmente sorte. As famílias com filhos tinham prioridade, e veteranos tinham prioridade, e tínhamos as duas coisas do nosso lado. E as pessoas que conheciam os políticos locais tinham a maior prioridade de todas. Mencionei que minha mãe era irlandesa?

Nosso novo endereço era o nº 35 do lado leste da First Street. No começo nosso apartamento era o 114, que tinha dois quartos; depois, quando minha irmã Janet nasceu, mudamos duas portas além, para o apartamento 116, que tinha três quartos, e ganhei um quarto próprio. Mas o nº 35 do lado leste da First Street continuou sendo minha casa até eu ir para a faculdade, quatorze anos depois. Era um bom endereço, e uma localização ainda melhor. Nosso primeiro apartamento só tinha vista para o pátio dos fundos, mas quando nos mudamos para o 116, nossas janelas se abriam para a 1st Street, com o cais e o parque, e o Kill Van Kull e a Staten Island. Era o mais bem situado dos nove prédios que formavam os LaTourette Gardens.

Esse era o nome oficial do nosso complexo de apartamentos. Ninguém os chamava de qualquer coisa que não “os conjuntos”, vejam bem, mas oficialmente eles eram os LaTourette Gardens. Haviam sido construídos no local onde antes ficava o Hotel LaTourette. E logo do outro lado da rua, a menos de dez metros de nossa porta, estava o Cais Municipal de Bayonne… conhecido em dias antigos como o Cais Brady. O cais ainda estava em uso, embora não para descarregar materiais de construção. Barcos de pesca esportiva o usavam nos finais de semana, partindo ao nascer do sol e retornando quando ele se punha. Durante os verões, grandes barcos a vapor de excursão partiam dali para a Rockaway Beach. Uma ou duas vezes por verão, minha mãe nos levava em um desses barcos, para um dia de passeio pelo Atlântico e pelos brinquedos no grande parque de diversões de Rockaway. Eu teria ido toda semana se pudesse, mas raramente tínhamos condições.

Os participantes da excursão sempre faziam fila cedo ao longo da First Street, para poder pegar os melhores assentos no barco, quando o embarque começasse. Nos finais de semana em que não estávamos velejando – isto é, a maioria dos finais de semana – eu montava uma barraca de limonada para vender bebidas. É claro, eu não sabia fazer limonada, então vendia Ki-Suco. Às vezes minha irmã Darleen ajudava. Era sempre um dia empolgante para nós, crianças, quando um dos vapores de excursão partia para Rockaway, com as multidões fazendo fila ao longo da rua e o grande barco de três conveses amarrado ao cais. Era ainda mais empolgante quando ele se soltava, com as bandeiras tremulando, e música tocando e todos os passageiros em pé nos parapeitos, acenando. Ainda assim, eu sempre ficava triste também. Eu queria estar no barco, não ficar para trás na costa com minha irmã e meio jarro de Ki-Suco.

A First Street também oferecia outras atrações empolgantes. Para começar, havia outras crianças. Muitas outras crianças. Era a época do Baby Boom, e, como eu disse, famílias com filhos tinham tido preferência quando os conjuntos abriram. Havia crianças em todo lugar – crianças mais novas, crianças mais velhas, crianças da minha idade, bebês de colo, bebês começando a andar, adolescentes. Para um menino cujo melhor amigo era o olho elétrico na Lavanderia Sunshine, se acostumar com isso demorou um tempo. Quatro anos sozinho no quintal haviam me tornado tímido de doer, mas fiz alguns amigos no final das contas. Gregory La-Bruno, Skipper Baker, Billy Martin, que tinha o mesmo sobrenome que eu, mas não era parente… e não, não era o técnico dos Yankees também. Mark Shapiro, do andar de cima, que virou estrela de TV. Ele e a família eram os únicos judeus nos conjuntos, perdidos em um mar de católicos. Bobby Strydio, o menino forte do outro lado do corredor, que virou meu melhor amigo e protetor. Ninguém queria mexer com um Strydio. Bobby tinha dois irmãos mais velhos que eram ainda maiores e mais fortes do que ele.

Esses meninos dos conjuntos foram meu primeiro público. Já contei várias vezes a história de como escrevia histórias de monstros e as vendia para os outros meninos dos conjuntos por alguns trocados, com leitura dramática e tudo.

Isso foi alguns anos depois, porém.

Lotsa Guns não conhecia muitas brincadeiras boas, mas os outros meninos conheciam. Brincávamos de pique-pega, ringolévio e pique-esconde. Brincávamos de estátua e “o mestre mandou”. Jogávamos beisebol de rua. Esse poste era a primeira base, aquela árvore a segunda, e aquele Studebaker lá era a terceira.

Uma brincadeira que me ensinaram quase me matou. Foi o “Rei da Colina“. Todos vocês conhecem a brincadeira, tenho certeza. Bem simples. Uma criança fica em cima de uma colina e a defende de todas as outras. Elas tentam te puxar pra baixo e tomar seu lugar, e você tenta empurrá-las antes que elas cheguem ao topo.

No entanto, não tínhamos colinas perto dos conjuntos, então usávamos carros estacionados, subindo nos capôs e nos para-brisas, e empurrando uns aos outros do teto para o asfalto. Quando se tem seis ou sete anos, o teto de um Plymouth 1947 é uma distância bem grande. Enfim, minha mãe me dissera meia dúzia de vezes que não queria que eu subisse em carros, mas todas as outras crianças estavam subindo, e eu não escutei. Foi aí que meu pai entrou. Nunca subi em outro carro de novo, e também não me sentei durante algum tempo.

Essa foi a única vez que me lembro de Smokey me bater. Na maior parte do tempo ele simplesmente me ignorava. Ele estava lá todo dia, por todos aqueles anos em que eu crescia, mas nunca dizia muita coisa. Ele vinha para casa das docas, jantava, assistia um pouco de televisão, e ia para o bar da esquina. Ficava lá até fechar, vinha para casa e ia para a cama. No dia seguinte, acordava e fazia tudo de novo. Consigo me lembrar de como ele colocava ketchup no purê de batatas e o amassava até ficar rosado, mas podem me enterrar se eu conseguir me lembrar de qualquer conversa dele durante as refeições. De tempos em tempos ele resmungava sobre o horário, chamava alguém de “pé no saco” ou mandava algum de nós, filhos, ficar quieto e comer, mas era só isso.

Nunca fiquei sabendo que meu pai tivesse lido um livro. Ele lia o jornal, embora mais as páginas de esportes. Torcia pelos Brooklyn Dodgers, e odiava os Yankees com muita força, e peguei isso dele… embora mais tarde eu tenha trocado os Dodgers pelos Mets. No futebol americano, era grande fã do Johnny Unitas, apesar de ele ter ganhado dos New York Giants no “Maior Jogo Já Jogado“. Unitas era o maior quarterback que já jogou, meu pai sempre dizia. Eu gostava do Johnny U também, mas nos anos sessenta, como um ato de rebeldia, virei torcedor dos Jets e comecei a dizer que Joe Namath era melhor que o Unitas. Meu pai achava que a AFL era uma piada, até o SuperBowl III. Quando Broadway Joe derrotou Johnny U, naquele dia não foi só a AFL que levou a melhor sobre a NFL, eu levei a melhor sobre meu pai.

Estávamos nos conjuntos só há um ano ou dois quando Smokey perdeu o emprego. Ele era empregado civil na base, mas houve cortes durante a recessão de Eisenhower, e ele foi dispensado. Então ficou mais ou menos um ano desempregado, antes de entrar no sindicato dos estivadores.

Ele trabalhou como estivador pelo resto da vida. Nos primeiros anos, ele acordava com a alvorada todos os dias para se ajeitar nas docas. “Se ajeitar” era o que se tinha que fazer, quando ainda não se era veterano e não se estava em uma turma – aparecer lá todo dia, esperando que houvesse navios suficientes chegando para conseguir algumas horas de trabalho. Na maior parte dos dias, ele voltava para casa às dez. Quando eu estava no ensino médio, ele estava em uma turma, trabalhando regularmente e ganhando um bom dinheiro, mas aqueles primeiros anos foram duros.

Para todos nós. Éramos pobres, sem dúvida. E esse fato me bateu bem forte quando comecei a ir à escola. Por mais legais que meus conjuntos fossem, se comparados aos horrores de um Cabrini-Green, o pessoal dos bairros ao redor não ficou exatamente entusiasmado com a construção deles. A maioria deles vivia em residências que só tinham uma família, afinal de contas. Não me lembro de nenhuma discriminação evidente… mas de alguma forma, todos nós, crianças dos conjuntos, sentíamos que éramos… bom, de certa forma não tão bons quanto as crianças normais de nossas turmas.

Formatura de GRRM na Escola Mary Jane Donohoe
A formatura de GRRM na Escola Mary Jane Donohoe. A Casa Westerling, de As Crônicas de Gelo e Fogo, herdou o lema da escola: “Honra, não Honras”. Fonte: GRRM, site oficial.

A St. Andrew era a escola primária mais próxima dos conjuntos – nós as chamávamos de “escolas de gramática” – mas Bayonne era tão católica que as escolas paroquiais tinham turmas duas ou três vezes maiores do que as das escolas públicas. Minha mãe me mandou para a número 4, a Escola Mary Jane Donohoe, concluindo que eu teria uma educação melhor em uma turma menor. O raciocínio dela não caiu bem com o padre da paróquia, que veio lhe dizer que ela iria para o inferno, a menos que eu fosse imediatamente matriculado na St. Andrew. Quando Smokey ficou sabendo disso, ameaçou socar o padre se ele voltasse alguma vez.

A MJD ficava só a quatro quarteirões curtos, então assim que tive idade suficiente, ia para a escola todo dia, direto da 1st para a 5st, ao longo da Lord Avenue… um nome do qual eu gostava quase tanto quanto “Old Gold”, por alguma razão. A melhor parte da caminhada era o quarteirão entre a 3rd e a 4th Street. Só aquele quarteirão era margeado por árvores, e as calçadas eram de ardósia em vez de cimento. Sempre havia bolotas no chão, e esquilos fazendo barulhinhos nas árvores, e o cheiro de folhas queimando todo outono. As casas entre a 3rd e a 4th eram mais velhas e maiores do que aquelas entre a 4th e a 5th, ou a 2nd e a 3rd… e uma delas, logo descobri, era a antiga casa Brady.

A casa em que minha mãe crescera… a casa que o pai dela, Thomas, construíra… a casa em que o irmão dela, Jimmy, vivera, o irmão com poliomielite, que construiu um dos primeiros aparelhos de rádio de Bayonne, e tinha um canário de estimação que empoleirava em seu ombro… a casa onde outro irmão, Tommy, morrera de infecção generalizada, decorrente de um furúnculo que pegara nadando nas águas poluídas do Kill Van Kull… a casa Brady. Mas claro que não era. Outras pessoas viviam lá agora, pessoas que não conhecíamos.

Eu passava por aquela casa duas vezes por dia, cinco dias por semana, durante nove anos. E toda vez que eu pisava fora de casa, via o cais do outro lado da rua. O cais era cercado por um alambrado, mas às vezes meus amigos e eu passávamos por cima dele. Do cais, era mais fácil chegar às pedras oleosas ao longo da costa, quando a maré estava baixa. Havia um vigia no cais, porém, e se ele nos visse, saía de seu barracão e gritava para nós. “Saiam daqui, seus moleques”, berrava. “Vocês não têm nada aqui.” Tenho, sim, parte de mim sempre queria gritar de volta, você é que não tem, meu bisavô CONSTRUIU esse cais. Eu era um menino tímido, porém, então nunca disse uma palavra.

Há algo em mim que adora um pôr-do-sol, e o considera de alguma forma muito mais tocante do que um nascer-do-sol. O crepúsculo é meu período favorito do dia, e o outono é minha época favorita do ano. Entre os meus poemas favoritos estão “Ozymandias“, de Shelley, e “So, we’ll go no more a roving” (“Assim, não mais vaguearemos”), de Lord Byron. Usei um deles em um episódio de A Bela e a Fera, e o outro em meu romance Sonho Febril. O título original de meu primeiro romance era Depois do Festival, e ele era ambientado em um planeta errante, que tinha gozado de um breve e brilhante momento ao sol, e agora vagava de volta para a noite eterna. A série de fantasia que estou escrevendo atualmente inclui uma rainha exilada que sonha em reconquistar o trono que o pai perdeu, e uma família espalhada ao vento depois que seu lar ancestral foi saqueado e tomado deles.

Fico me perguntando de onde tirei todas essas… essas… bom, “coisas estranhas”, como meu pai dizia. Terror, ficção científica, fantasia, eram todas “coisas estranhas” para o Smokey. Ele gostava de faroestes, qualquer coisa com o John Wayne, e nunca entendeu os tipos de programas de que eu gostava. Morreu em 1975, de cirrose do fígado. No mesmo ano em que ganhei meu primeiro Hugo. Tanto quanto sei, ele nunca leu uma palavra que escrevi.

GRRM Santa Claus
George e sua irmã Darleen com Papai Noel. Fonte: GRRM, site oficial.

O primeiro conselho que dão em qualquer curso de escrita é “Escreva o que você conhece.” Quando eu estava começando, eu odiava esse conselho. Escrever o que conheço? Eu queria escrever sobre dragões e castelos e espaçonaves e alienígenas e planetas distantes. Bom, eu nunca tinha visto um dragão. Os conjuntos sequer nos permitiam ter cachorros e gatos. Eu tinha que me virar com periquitos, peixinhos, e muitas tartarugas baratas. O mais perto que cheguei de andar em uma espaçonave foi o banco de trás de um táxi. Nunca tinha andado de avião até meu ano de calouro na Northwestern. Quanto a esses planetas distantes… diabos, Nova York poderia muito bem ser um planeta alienígena para nós. O centro de Manhattan ficava só a quarenta e cinco minutos de ônibus, mas íamos à cidade uma vez por ano, no máximo, para ver o Papai Noel na Macy’s e comer em uma automat. Todo verão fazíamos uma ou duas viagens à Rockaway Beach nos barcos de excursão. Fora isso, nunca saíamos de Bayonne.

Mas eu podia ficar sentado no meu apartamento e olhar pela janela. Dia e noite, os cargueiros passavam, indo e vindo do Porto Newark, ostentando as bandeiras da França e da Noruega e da Libéria e de metade das outras nações da terra. Eu tinha um grande livro de bandeiras que usava para consultar, quando os navios passavam ao longo do Kill Van Kull. E depois que escurecia, as luzes brilhavam pelas águas do Kill Van Kull. Era só Staten Island, mas para mim eram Xangai e Paris, Timbuctu e Kalamazoo, Portomarte e Trantor, e todos os lugares aos quais eu nunca tinha ido e nunca podia esperar ir. Às vezes eu saía e deitava na grama, olhando para além dos telhados, para as estrelas distantes. Sabia os nomes de algumas delas, Rígel e Sírio e Polar, Deneb e Altair e Vega. Mas eu certamente nunca estivera lá. Eu nunca estivera em lugar nenhum.

Bayonne e Kill Van Kull
Bayonne, a ponte sobre o Kill Van Kull, e Staten Island do outro lado (1968). Foto: HAER. Fonte: Biblioteca do Congresso Americano.

Escreva o que você conhece? Eu não conhecia nada a não ser Bayonne. Tive que ignorar esse conselho, ou nunca teria conseguido escrever nada. Anos e anos depois, quando Wild Cards surgiu, eu usaria Bayonne e o nº 35 do lado leste da First Street para dar forma a um personagem chamado Thomas Tudbury, também conhecido como o Grande e Poderoso Tartaruga. “Sim,” eu admitia timidamente quando perguntado, “Sou Tom Tudbury, só que sem a telecinese fodona.”

E é verdade, e é falso.

Tommy sou eu… mas não mais que todos os outros. Robb sou eu em Uma Canção Para Lya, como Dirk sou eu em A Morte da Luz… embora tanto Arkin Ruark quanto Jaan Antony sejam eu nesse também. Abner Marsh sou eu, como seu orgulhoso vapor Sonho Febril é o barco da excursão para Far Rockaway, só que os passageiros bebem sangue em vez de Ki-Suco. Sandy Blair sou eu na faculdade de jornalismo, Peter Norten sou eu no clube de xadrez, Kenny Dorchester sou eu tentando perder peso. Holt em A Cidade de Pedra, ele é o menino deitado na grama, olhando as estrelas distantes. Trager sou eu em uma noite escura da alma, sangrando veneno de três feridas chamadas Josie, Laurel, Rita. Há parte de mim em Jon Snow, e em Sam Tarly. Nas mulheres também, Lyanna e Sharra, e nas meninas, Arya e Adara… Daenerys Nascida-da-Tormenta, buscando aquela casa da porta vermelha. E Tyrion Lannister? Ah, sim. O Duende sou eu demais, o safadinho.

Escreva o que você conhece, dizem. Bom, é só isso que qualquer um de nós sempre faz. Nunca deixe que alguém diga o contrário.

William Faulkner disse que só o problema do coração humano em conflito consigo mesmo pode resultar em boa escrita, porque é só sobre que isso vale a pena escrever, só isso vale a agonia e o suor.

E Robert Bloch falou sobre o coração também. Ele disse que tinha o coração de um menininho. Ele o guardava em um pote, em cima da escrivaninha.

Tenho o coração de um menininho também… mas o meu ainda está aqui, para o bem ou para o mal. Não tenho filhos, mas tenho uma centena de filhos… e fui criança também, ainda ontem… e me lembro.

Obrigado.