Capa da edição brasileira de Nightflyers. Arte de Julio Zartos.

Em junho de 2019, a editora Suma lançou sua terceira publicação de George R. R. Martin no Brasil. Depois de Fogo e Sangue e o relançamento de A Guerra dos Tronos, o selo editorial da Companhia das Letras se aventura a trazer uma história de Martin que não se passa em Westeros: a ficção científica Nightflyers.

Publicada originalmente em 1980, essa novela é a história da busca por um povo alienígena perdido – que pode não passar de lendas – os Volcryn. Assim como outras das mais importantes ficções científicas de Martin, como A Morte da Luz, Uma Canção Para Lya e Tuf Voyaging, Nightflyers se passa nos Mil Mundos, um universo compartilhado no qual a Terra se lança em missão colonizadora espacial, mas eventualmente, tem seu império colapsado, deixando humanos espalhados por diferentes cantos do universo, imersos em diferentes ambientes, culturas e situações políticas.

O capitão Karoly D’Brannin reúne mais oito cientistas com diferentes habilidades (de linguistas a telepatas) e a equipe embarca na nave Nightflyer, capitaneada pelo misterioso Royd Eris, que aparece para a tripulação apenas em hologramas. A desconfiança de alguns destes cientistas leva a conflitos durante a viagem, enquanto Melantha Jhirl, membro da equipe de D’Brannin, começa a simpatizar com Royd.

Em 1987, a história havia sido adaptada para o cinema, em um longa dirigido por Robert Collector que recebeu uma série de críticas, incluindo do próprio George R. R. Martin, que reprovou a escolha do elenco e as diferenças na adaptação. Já em 2018, o canal SyFy produziu uma adaptação televisiva comandada por Jeff Buhler, distribuída internacionalmente pelo Netflix, e cancelada dois meses após a estreia.

Foi no contexto do lançamento da série do SyFy que a nova edição brasileira de Nightflyers foi anunciada. O lançamento efetivamente ocorreu meses depois do cancelamento adaptação para a TV. A primeira publicação da história por aqui acontecera em 2017, sob o título de Voadores da Noite, na coletânea da editora Leya, RRetrospectiva da Obra. No entanto, o acabamento de luxo e a tiragem pequena da coletânea não contribuíram para que a novela se tornasse conhecida.

Imagem promocional da adaptação televisiva de Nightflyers. Da esquerda para a direita: Karl D’Branion (Eoin Macken), Rowan (Angus Sampson), Melantha Jhirl (Jodie Turner-Smith), Auggie (Brían F. O’Byrne) e Lommie Throne (Maya Eshet).

A Suma fez uma aposta diferente: a novela foi publicada sozinha, não como parte de uma coletânea, e veio com capa dura e ilustrações internas espetaculares de David Palumbo, produzidas originalmente para a edição norte-americana, publicada pela Bantam no ano passado. A tradução ficou novamente por conta de Alexandre Martins, apesar de terem havido alterações pontuais no texto. Como leitor, fiquei bastante satisfeito com a edição em si. Mantendo a identidade visual criada pela editora anterior para o material de Martin, o livro (que é bem curto) ficou visualmente muito agradável, com tamanho bastante adequado.

Nightflyers
Capa e folha de guarda de Nightflyers da Suma.

Parte da divulgação da parceria entre SyFy e Netflix para a já abandonada série de TV era lembrar que, como o de costume nas histórias de Martin, Nightflyers é cheia de reviravoltas e mortes inesperadas. No entanto, o leitor deve tomar cuidado para não embarcar na leitura esperando uma versão espacial de As Crônicas de Gelo e Fogo.

Sim, há mortes e reviravoltas nessa novela, mas isso tem muito mais a ver com os gêneros que se fazem presentes aqui. Ao contrário de conspirações políticas e longas jornadas de amadurecimento dos personagens, Nightflyers é uma espécie de slasher em uma ambientação espacial.

E embora Nightflyers cumpra muito bem essa premissa – George já se referiu a ela como “Psicose no Espaço” –, Karoly, Melantha e Royd não me parecem ser o elenco de protagonistas mais inspirado da carreira de George. Melantha é frequentemente irritante, lembrando que é “um modelo aprimorado” em todas as oportunidades, e seu passado é pouco explorado. Para Karoly falta desenvolvimento: ele se mantém o mesmo, agindo de maneira bastante mecânica do início ao fim. Royd Eris, apesar de ser um personagem mais interessante, com dilemas mais humanos, também não nos oferece momentos memoráveis.

Imagem interna da edição da editora Suma de Nightflyers, com arte de David Palumbo.

Quanto aos personagens coadjuvantes, há um conceito interessante o suficiente, mas que não é desenvolvido no desenrolar do enredo. Uma equipe de cientistas com diferentes especialidades parece uma ótima oportunidade para termos ali uma multiplicidade de personalidades e visões de mundo, o que resultaria em bons diálogos, que Martin sabe tão bem escrever. No entanto, a participação bastante limitada da maioria deles dá a impressão de que algo ficou faltando.

No desenrolar da trama, o leitor se pega curioso sobre como as misteriosas mortes a bordo da Nightflyers vão se desenrolar, como isso está relacionado com os diferentes personagens, mas a partir de determinado ponto, elas acontecem rápido demais e, justamente pelos personagens não terem sido muito bem desenvolvidos, não há como se sentir impactado com as suas mortes como nos sentimos com Eddard, Robb, Catelyn e tantos outros em As Crônicas de Gelo e Fogo.

A minha opinião é que essa novela poderia ter sido um excelente romance. Os dois mistérios principais (sobre a nave e sobre os Volcryn) são um núcleo bem sólido, mas  o restante soa simples demais, vazio demais. Quando Martin cita William Faulkner, dizendo que “a única história que vale à pena ser contada é a história sobre o coração humano em conflito consigo mesmo“, isso é central para pensarmos As Crônicas de Gelo e Fogo, e, via de regra, para tudo que o autor escreve. Mas Nightflyers falha em sensibilizar o leitor, justamente por pecar em nos mostrar a humanidade de seus personagens. Muito embora eu seja, pessoalmente, um grande fã dos Mil Mundos de Martin, Nightflyers não figura entre as minhas histórias favoritas, e observo que ela costuma falhar em atingir o coração do público.

Por isso, temo que a ficção científica do autor possa ter um fim prematuro no Brasil. Ainda não tivemos uma publicação acessível das suas maiores contribuições para o gênero, como Uma Canção Para Lya e Reis da Areia, e torço para que Nightflyers não nos tire essas excelentes oportunidades. Talvez fosse mais acertado publicar a coletânea Nightflyers and Other Stories, que a editora Tor reeditou ano passado, para que os leitores pudessem ter uma impressão mais panorâmica dessa fase da escrita de Martin. Mas a oportunidade não está perdida, o autor ainda tem outras cinco coletâneas focadas na em ficção científica que podem ser traduzidas no futuro. Ficaremos na torcida.

Ficha técnica

Título: Nightflyers
Editora: Suma
Formato: capa dura, ebook
Número de páginas: 161
Publicação: 17 de junho de 2019 (original: 1981)


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